por Uwe Blesching em 26 de setembro de 2020
thc e cbd
Para explorar a cannabis medicinal de forma útil e medicinalmente assertiva é fundamental ter um entendimento claro dos nomes básicos e vernáculos da própria planta, bem como, dos efeitos medicinais associados a ela. Para tal, vamos rever e definir o significado de vários termos-chave no vernáculo da planta cannabis.

Para ser claro, existe apenas um GÊNERO (classificação biológica) de cannabis. Este gênero de cannabis é dividido em três ESPÉCIES primárias: as espécies mais comuns sativa e indica, e uma espécie mais rara, chamada ruderalis. A maioria dos efeitos medicinais proporcionados pela cannabis estão associados às espécies sativa e indica.

Uma subdivisão adicional dessas três espécies é realizada através da definição de “cepas” (em inglês strains). 

Você pode pensar em uma variedade como uma forma de diferenciar ou de criar uma classificação de valor adicional dentro de cada uma das três espécies de cannabis. Há literalmente milhares de variedades de cannabis – muitas com seu próprio nome – que tendem a refletir a escolha do cultivador, que muitas vezes se baseia em:

  • Diferenças sensoriais (por exemplo, aroma, aparência, sensações), 
  • Diferenças nos constituintes das plantas (por exemplo, perfis de canabinoides ou terpenos), ou 
  • Experiências subjetivas compartilhadas (como efeitos sobre o humor). 

Qualquer visita a um dispensário de produtos à base de cannabis nos EUA lhe proporcionará uma exibição abundante de nomes criativos que tentam comunicar uma dessas qualidades baseadas em “estirpes” de cannabis. 

 

Considere os seguintes exemplos de nomes dessas “cepas”: Bruce Banner (um avatar para o vingador de quadrinhos extremamente musculoso Hulk, indicando um conteúdo extremamente poderoso à base de THC); Chocolate ou Skunk (refletindo seus traços olfativos únicos e potentes de terpenos); Euphoria ou Buda Risonho (autoexplicativo); e Anestesia (frequentemente utilizada para dor).

Para esclarecimento, genótipo e fenótipo melhor diferenciam as quimiovariantes da planta cannabis. Genótipo refere-se à composição genética da planta ou DNA, que contém todas as variações genéticas ou possibilidades de expressão da planta. Fenótipo é a forma como um sinal ambiental específico ativa um conjunto de genes, enquanto deixa outros inativos – ou seja, como a planta se expressa fisicamente. Você pode achar útil pensar em fenótipos como irmãos que compartilham alguns traços visíveis, mas outros não.

Quando se trata de prever propriedades medicinais específicas e o potencial de efeitos adversos, as distinções mais importantes são derivadas de três QUIMIOTIPOS (também conhecidos como quimovariantes) da cannabis. 

 

No mundo vegetal em geral, as quimiovariantes indicam diferenças quimicamente distintas na composição, embora a planta possa parecer a mesma. Pequenas diferenças genéticas podem levar a grandes mudanças nos constituintes químicos das plantas.

De acordo com as últimas quatro décadas de pesquisas, três números básicos são a chave primária (mas não as únicas variáveis) para a previsibilidade de efeitos terapêuticos específicos para qualquer tipo de planta cannabis: 

  • I) a quantidade de tetrahidrocanabinol (THC), constituinte primário da cannabis; 
  • II) a quantidade de canabidiol (CBD) constituinte não psicotrópico da cannabis; 
  • III) a proporção de THC para CBD. 

São esses três números que discernem as três quimovariantes básicas da cannabis, que foram propostas pela primeira vez em 1973 por E. Small e H.D. Beckstead1,2. Os números romanos I, II e III são usados para distingui-los. 

 

Uma quimiovariante tipo I contém mais THC do que CBD, uma quimiovariante tipo II contém quantidades relativamente iguais, e uma quimiovariante tipo III contém mais CBD do que THC. 

Entretanto, antes de analisarmos as quimiovariantes da cannabis e como explorá-las da maneira mais eficaz para as diferentes populações de pacientes para as quais a cannabis se mostra promissora, é útil examinar brevemente o modelo de prescrição arcaico baseado na distinção sativa vs indica

Embora essas distinções básicas ainda possam ser úteis em termos de descrição de características físicas ou tendências de perfil de terpenos – que certamente podem ter valor para um cultivador ou usuário recreativo da planta – para pacientes que precisam saber como produzir de forma confiável um efeito terapêutico específico esse antigo padrão da indústria está ficando de lado, simplesmente porque no contexto médico, ele não é baseado em evidências, é muito impreciso e, portanto, os efeitos potenciais não são sustentáveis. 

Em um exemplo, no modelo antigo, uma “cepa sativa” é recomendada para a depressão, enquanto uma “cepa indica” é recomendada para a ansiedade. No entanto, como frequentemente acontece, ambas as “cepas” podem piorar a ansiedade e a depressão, o que está diretamente relacionado com os três números significativos mencionados acima, que vale a pena repetir: um, a quantidade de THC em cada quimiovariante; dois, a quantidade de CBD; e três, a proporção de THC e CBD na quimiovariante. 

 

Eis porque maiores quantidades de THC podem induzir um ataque de pânico ou aprofundar um processo depressivo, especialmente em pessoas recém-chegadas às terapias baseadas em derivados canabinoides ou em pessoas que são muito sensíveis ao THC. 

Por outro lado, o uso de um tipo de cannabis com quantidades substanciais de CBD pode reduzir significativamente o potencial de risco de efeitos adversos do THC; e também é digno de nota que os tipos de cannabis predominantes em CBD (com >0,3% de THC) podem produzir melhora de humor relevante tanto na ansiedade quanto na depressão, com segurança e sem risco de efeitos adversos relevantes.

O quadro a seguir mostra apenas algumas das diferenças básicas nos efeitos fisiológicos das quimiovariantes relatadas pela literatura científica.  

Quimiovariantes da Cannabis – Evoluindo critérios para a previsibilidade de efeitos fisiológicos

Quimiovariante I

 

TCH>CBD

Quimiovariante II

 

TCH≈CBD

Quimiovariante III

 

THC<CBD

Proporções comuns QV-I THC:CBD: 

100:1, 50:1, 20:1, 5:1

Proporções comuns QV-II THC:CBD: 

4:1, 3:1, 2:1, 1:1, 1:2, 1:3, 1:4

Proporções comuns QV-III THC:CBD: 

1:8, 1:15, 1:25

Análogos aprovados pela FDA ou UE

Análogos aprovados pela FDA ou UE

Análogos aprovados pela FDA ou UE

Dronabinol (Marinol® & Syndros®)

Nabilone (Cesamet®)

Bedrocan (EU) THC:CBD ~(22:1),

Bedrobinol (EU) THC:CBD ~(13:1)

Bedica (EU) THC:CBD ~(14:1)

Nabiximols (Sativex®) THC:CBD ~(1:1)

Bediol (EU) THC:CBD ~(6:8)

Epidiolex® (US)

Epidolex® (EU)

Bedrolite (EU) THC:CBD ~(1:9)

Exemplos de quimiovariantes QV-I (THC% máximo)

 

Godfather OG ~34% THC3

Super Glue ~32% THC4

Strawberry Banana ~32% THC5

Exemplos de quimiovariantes QV-II (THC% máximo)

 

Cellar CBD: ~7.3% THC:~7.7% CBD6

Hayley’s Comet: ~15%THC:10% CBD7

CBD OG ~9.01% THC:19.5% CBD

Exemplos de quimiovariantes  QV-III (THC% máximo)

 

Charlotte’s Web ~O.5% THC:17% CBD

AC/DC ~0.8% THC:15.4% CBD

Cannatonic ~0.8% THC:20.8% CBD

Potencial de alterações cognitivas: 

Alta expectativa de alterações cognitivas e mudanças no humor

 

Potencial de Mudança Cognitiva:

Expectativa moderada de alterações cognitivas e mudanças no humor

 

Potencial de Mudança Cognitiva

Sem expectativas de alterações cognitivas (desde que >0,3% de THC). Expectativas de mudanças positivas (e suaves) de humor 

Potencial de Relaxamento: profundo

Potencial de Relaxamento: moderado

Potencial de Relaxamento: leve

Potencial sedativo: Sedação consciente

Potencial sedativo: suave

Potencial sedativo: Sem efeitos sedativos

Potencial de efeitos adversos: 

Linha muito tênue entre efeitos terapêuticos e potenciais efeitos adversos.

Baixo potencial de risco para dependência.

Potencial de efeitos adversos: Uma linha mais ampla entre efeitos terapêuticos e potenciais efeitos  adversos.

Muito baixo potencial de risco para dependência.

Sem potencial para efeitos adversos. Principalmente efeitos terapêuticos (desde que >0,3% THC).

Sem potencial de risco para dependência (desde que >0,3% de THC).

Potenciais indicações terapêuticas:

Autismo com agitação psicomotora

Alzheimer com agitação psicomotora

Neuropatias associadas à HIV/AIDS

Sintomas de abstinência química

Dor crônica

Potenciais indicações terapêuticas:

Fibromialgia

Esclerose múltipla

Dor associada a espasmos musculares

Neuropatias periféricas

Potenciais indicações terapêuticas:

Epilepsia

Doenças cardíacas

Acne

Dependência química

Psicose

Duas quimiovariantes adicionais foram propostas na literatura científica: as quimiovariantes IV e V. 

 

A quimiovariante IV foi relatada por Fournier et al. em 19878  e definida como tendo o CBG (Canabigerol) como o fitocanabinoide mais abundante. As quimiovariantes predominantes em CBG da cannabis apresentam relevância potencial para pacientes que sofrem de dor crônica, inflamações diversas e transtornos de estresse. 

A quimiovariante V foi proposta por Mandolino e Carboni em 20049 e inclui variedades que são nulas de qualquer canabinoide detectável.

À medida que mais dados clínicos se tornam disponíveis, quimiovariantes adicionais são uma possibilidade real. Por exemplo, as variedades abundantes em THCV (Tetrahidrocanabidivarina) podem constituir uma quimiovariante potencialmente nova, desempenhando um papel significativo no tratamento da síndrome metabólica, obesidade e diabetes. Da mesma forma, é provável que outras quimiovariantes venham a ser designadas no futuro.

Além disso, o número de quimiovariantes da cannabis e suas definições originais estão evoluindo. Em resumo, originalmente uma quimiovariante de cannabis tipo II foi definida como contendo quantidades “relativamente iguais” de THC e CBD, assim como o Sativex®, que se tornou um medicamento referência para o tratamento de sintomas primários e secundários da EM. 

Para muitos médicos, uma proporção de 1:1 tornou-se um ponto de partida para se determinar a farmacodinâmica (os efeitos que cada canabinoide pode causar no organismo) e a farmacocinética (o que o organismo faz com cada canabinoide)10  ideal do THC e do CBD.  As quais são diferentes para o CBD e o THC e podem variar muito entre cada paciente e diferentes populações de pacientes. 

Por isso, uma prescrição ideal para muitos pacientes pode ser uma proporção mais ampla situada entre ~4:1 THC:CBD ou ~1:4 THC:CBD. Como observado em um ensaio clínico randomizado e controlado por placebo (2019), que demonstrou que uma quimiovariante tipo II chamada Bediol, na proporção THC:CBD (~1,4:1) funcionava melhor que o placebo ou que as quimiovariantes I e III para pacientes com dor crônica diagnosticados com fibromialgia.

 

Tomar consciência de como e quais canabinoides (especialmente THC e CBD) afetam o corpo, a mente e as emoções é indispensável para discernir os constituintes químicos da planta que melhor funcionarão em cada caso. Você pode perguntar: por quê? 

Considere o seguinte: ao trabalhar com terapias baseadas em canabinoides, há uma série de variáveis que estão além de seu controle, tais como: a velocidade com que um fitocanabinoide atravessa a barreira hematoencefálica, os processos inflamatórios vigentes que potencialmente alteram a disponibilidade receptores de endocanabinodes CB2, o tônus de funcionamento do sistema endocanabinoide ou a potencial deficiência de produção de substâncias endocanabinoides, por exemplo. 

 

A parte boa é que evidências científicas crescentes nos informam que há uma série de medidas que você pode tomar para garantir a melhor combinação de derivados canabinoides para seu paciente. E, o primeiro e mais básico passo é escolher a quimiovariante de cannabis – seguido das proporções dessa quimiovariante, via de administração, dosagens específicas e probabilidades de efeitos de sinergia ou em comitiva. Estas etapas permitirão que você ajuste os principais componentes químicos da cannabis com maior assertividade, prevendo os efeitos terapêuticos que você precisa alcançar com segurança, e ao mesmo tempo, evitando e reduzindo qualquer potencial efeito adverso.

 

Referências

1. Small E. and Beckstead H. D. Cannabinoid phenotypes in Cannabis sativa. Nature 245: 147-148. 1973.

2. Small E. and Beckstead H. D. Common cannabinoid phenotypes in 350 stocks of Cannabis. Lloydia 36: 144-165. 1973.

3. High Times. The Strongest Strains on Earth. May 2017. Lab testing done by Canna Safe Analytics (Murrieta CA.) Laboratory test used: High-Performance Liquid Chromatography.

4. Ibid.

5. Ibid.

6. Ibid.

7. Patent. Hayley’s Comet CA 2737447 A1. Filling Date Apr 27, 2011.

8. Fournier G., Richez-Dumanois C., Duvezin J., Mathieu J.-P. and Paris M. Identification of a new chemotype in Cannabis sativa: cannabigerol-dominant plants, biogenetic and agronomic prospects. Plant. Med. 1987. 53: 277–280.

9. Mandolino G. and Carboni A. 2004. Potential of marker assisted selection in hemp genetic improvement. Euphytica 140: 107–120.

10. Pharmacokinetics i.e. Absorption, Distribution, Metabolism and Excretion (ADME)

11. van de Donk T, Niesters M, Kowal MA, Olofsen E, Dahan A, van Velzen M. An experimental randomized study on the analgesic effects of pharmaceutical-grade cannabis in chronic pain patients with fibromyalgia. Pain. 2019;160(4):860-869.

 

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