No vasto e fascinante campo dos produtos naturais, os terpenos (ou isoprenoides) surgem como uma classe diversificada de compostos orgânicos com profundas implicações farmacológicas. Dentre eles, o α-Pineno, um monoterpeno bicíclico, abundante em resinas de coníferas (pinheiros) e em diversas outras plantas aromáticas, incluindo o alecrim (Rosmarinus officinalis) e a Cannabis sativa L., tem capturado a atenção da comunidade científica devido ao seu amplo espectro de atividades biológicas.¹
O α-Pineno confere o característico aroma resinoso de pinho e, como metabólito secundário, é sintetizado nas plantas através da via do mevalonato (MVA), a partir da condensação “cabeça-cauda” de unidades de isopreno (C5). É crucial notar que o α-Pineno existe em formas enantioméricas (isômeros α e β, cada um com enantiômeros (+) e (-), e essa quiralidade é determinante para a sua atividade biológica e potencial terapêutico.¹
No post de hoje, vamos nos aprofundar nas propriedades terapêuticas do α-Pineno, detalhando seus mecanismos moleculares e a sua relevância crescente no contexto da fitomedicina e da Cannabis medicinal.
O α-Pineno no complexo fitofarmacológico da Cannabis sativa
A Cannabis sativa L. é uma fonte rica de terpenos, que são reconhecidos por modular os processos fisiopatológicos subjacentes a várias condições, incluindo dor e inflamação. O α-Pineno é um monoterpeno comum encontrado nas quimiovariantes da Cannabis. Embora muitas vezes seja um constituinte minoritário, em certas variedades, especialmente alguns tipos “sativa” ou híbridos (como o quimiotipo Kilimanjaro), ele pode atingir níveis mais elevados, sendo por vezes o composto principal.²
No contexto da Cannabis medicinal, a importância do α-Pineno está intimamente ligada ao conceito de Efeito Entourage. Essa hipótese sugere que os terpenos, mesmo em baixas concentrações, podem agir sinergisticamente para modular e potencializar os efeitos farmacológicos dos canabinoides, como o THC e o CBD (Canabidiol). Especificamente, o α-Pineno pode contribuir para mitigar alguns efeitos adversos do THC, como o déficit de memória de curto prazo, devido à sua atividade inibitória sobre a enzima acetilcolinesterase (AChE).²
Para saber mais sobre o Efeito Entourage, acesse: Entenda o efeito entourage e por que a planta completa é melhor que suas partes isoladas – WeCann Academy
Embora alguns estudos sugiram que o Efeito Entourage não se deve à interação direta dos terpenos com os receptores canabinoides CB1 ou CB2, a modulação de outras vias neurais e inflamatórias, como veremos, torna o α-Pineno um adjuvante promissor em formulações fitoterapêuticas.
Mecanismos farmacológicos chave do α-Pineno
As atividades do α-Pineno abrangem áreas vitais da prática clínica, desde a oncologia até a neurologia e o manejo da dor crônica.
1. Atividade Anti-inflamatória e Analgésica
O α-Pineno apresenta propriedades anti-inflamatórias significativas em diversos modelos pré-clínicos. Fisiologicamente, este monoterpeno é capaz de modular vias de sinalização cruciais envolvidas na resposta inflamatória, incluindo:
- Inibição do NF-κB: O α-Pineno demonstrou inibir a ativação da viaNF-κB (Nuclear Factor kappa B) em macrófagos peritoneais. A supressão desta via de transcrição nuclear é fundamental, pois é uma central reguladora da expressão de genes pró-inflamatórios.3,4
- Modulação de Citocinas: Ao inibir o o NF-κB, o α-Pineno reduz a formação de citocinas pró-inflamatórias, como a Interleucina-6 (IL-6) e o Fator de Necrose Tumoral-α (TNF-α).³
- Inibição da COX-2: Estudos indicam que o α-Pineno, presente em óleos essenciais como o de olíbano (Boswellia carterii), contribui para a atividade analgésica tópica e anti-inflamatória pela inibição da ciclo-oxigenase-2 (COX-2).5
- Antinocicepção: Em modelos de dor, o α-Pineno foi capaz de reduzir a nocicepção e tem sido sugerida a sua interação com o sistema opioide, uma vez que a resposta antinociceptiva foi parcialmente inibida pela naloxona. O monoterpeno também é eficaz em modelos de hiperalgesia neuropática, prevenindo a hipersensibilidade mecânica, com eficácia comparável à gabapentina em alguns modelos pré-clínicos.6,7
2. Neuroproteção e Efeitos sobre o Sistema Nervoso Central (SNC)
O α-Pineno é uma molécula lipofílica que consegue atravessar a barreira hematoencefálica, permitindo sua ação no SNC.
- Modulação GABAA: O α-Pineno atua como um modulador alostérico positivo dos receptores GABAA, que são alvos centrais para a ação sedativa e ansiolítica. Em camundongos, o α-Pineno demonstrou melhorar a qualidade do sono, reduzindo a latência do sono e aumentando a duração do sono NREMS (Non-Rapid Eye Movement Sleep), através da ligação aos receptores GABAA-benzodiazepina.¹
- Ação Neuroprotetora: Possui potencial neuroprotetor em doenças neurodegenerativas (como Alzheimer e Parkinson). Demonstrou inibir a acetilcolinesterase (AChE), enzima chave na patogênese da doença de Alzheimer, e melhorar o aprendizado e a memória em modelos de camundongos. Também protege o sistema nervoso ao atenuar o estresse oxidativo induzido por H2O2 em células PC12.¹
- Anticonvulsivante: Foi demonstrada a capacidade do α-Pineno em reduzir convulsões e diminuir o estresse oxidativo em modelos animais tratados com pentilenotetrazol (PTZ).¹
3. Efeitos Anticâncer e Antimetastáticos
O α-Pineno tem sido explorado como um potencial agente anticâncer, com foco particular no melanoma maligno.
- Indução de Apoptose: Em modelos de melanoma murino (células B16F10), o α-Pineno demonstrou induzir apoptose através de mecanismos como a disrupção precoce do potencial mitocondrial, formação de espécies reativas de oxigênio (ROS), aumento da atividade da caspase-3, fragmentação do DNA e exposição de fosfatidilserina na superfície celular.¹
- Inibição de Metástase e Proliferação: Foi reportado que o α-Pineno isolado de Schinus terebinthifolius confere proteção antimetastática em modelos de melanoma. Adicionalmente, o monoterpeno inibe a proliferação de células de carcinoma hepatocelular (fígado), induzindo a parada do ciclo celular na fase G2/M.8
4. Outras Atividades
O α-Pineno também exibe uma variedade de outras atividades clinicamente relevantes:
- Antimicrobiano: Demonstra atividade antibacteriana contra estirpes Gram-positivas e Gram-negativas, incluindo Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), e potencial antifúngico.9
- Gastroprotetor: Apresenta atividade antiulcerogênica significativa, protegendo contra lesões gástricas agudas induzidas por etanol e indometacina.²
- Broncodilatador: O isômero α-Pineno, juntamente com o seu isômero β-Pineno, pode melhorar o fluxo de ar para os pulmões, sendo um componente ativo em preparações utilizadas para bronquite e obstrução pulmonar crônica.9
Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar do robusto potencial pré-clínico, a tradução do α-Pineno para a prática clínica enfrenta desafios significativos, principalmente relacionados à sua farmacocinética. Sendo um composto altamente volátil e lipofílico, o α-Pineno possui baixa biodisponibilidade oral, metabolismo hepático rápido e uma meia-vida curta, resultando em exposição sistêmica limitada e imprevisível após a dosagem convencional.
Para superar essas barreiras e acessar todo o potencial terapêutico do α-Pineno, é importante o desenvolvimento de formulações otimizadas que melhorem sua solubilidade e absorção, como nanoformulações ou sistemas de liberação auto-emulsificantes (SEDDS).²
Conclusão
À medida que o conhecimento sobre terpenos avança, o α-Pineno se destaca como um dos compostos mais promissores dentro e fora do universo da Cannabis medicinal. Para os médicos, compreender seu potencial não é mais um diferencial — é uma necessidade diante de um cenário onde terapias integrativas, mecanismos moleculares e abordagens personalizadas ganham espaço na prática clínica.
O estudo do α-Pineno vai muito além de reconhecer seu aroma característico: envolve dominar suas ações anti-inflamatórias, neuromodulatórias, analgésicas, broncodilatadoras e até antineoplásicas, além de entender como ele interage com canabinoides no fitocomplexo da cannabis, contribuindo para o Efeito Entourage. Esse conhecimento exige profundidade científica, atualização constante e capacidade de integrar evidências pré-clínicas emergentes às decisões terapêuticas.
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Assim como a Cannabis medicinal representa uma mudança de paradigma, os terpenos — e especialmente o α-Pineno — ampliam ainda mais esse horizonte, oferecendo novas interpretações farmacológicas e potenciais aplicações clínicas. Estar preparado para essa evolução significa compreender não apenas o que o α-Pineno faz, mas como, quando e para quem ele pode fazer a diferença.
Nesse contexto, iniciativas educacionais especializadas tornam-se estratégicas para médicos que desejam liderar essa nova fase da fitomedicina baseada em evidências. Dominar o papel do α-Pineno é um passo essencial para quem busca integrar conhecimento, segurança e inovação na prática clínica contemporânea.
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Referências
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- Alfieri, Aniello et al. “Phytochemical Modulators of Nociception: A Review of Cannabis Terpenes in Chronic Pain Syndromes.” Pharmaceuticals (Basel, Switzerland) vol. 18,8 1100. 24 Jul. 2025, doi:10.3390/ph18081100
- Kim, D.S.; Lee, H.J.; Jeon, Y.D.; Han, Y.H.; Kee, J.Y.; Kim, H.J.; Shin, H.J.; Kang, J.; Lee, B.S.; Kim, S.H.; et al. Alpha-Pinene Exhibits Anti-Inflammatory Activity Through the Suppression of MAPKs and the NF-kappaB Pathway in Mouse Peritoneal Macrophages. Am. J. Chin. Med. 2015, 43, 731–742.
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- Rahbar, I.; Abbasnejad, M.; Haghani, J.; Raoof, M.; Kooshki, R.; Esmaeili-Mahani, S. The effect of central administration of alpha-pinene on capsaicin-induced dental pulp nociception. Int. Endod. J. 2019, 52, 307–317.
- Araujo-Filho, H.G.; Pereira, E.W.M.; Heimfarth, L.; Souza Monteiro, B.; Santos Passos, F.R.; Siqueira-Lima, P.; Gandhi, S.R.; Viana Dos Santos, M.R.; Guedes da Silva Almeida, J.R.; Picot, L.; et al. Limonene, a food additive, and its active metabolite perillyl alcohol improve regeneration and attenuate neuropathic pain after peripheral nerve injury: Evidence for IL-1beta, TNF-alpha, GAP, NGF and ERK involvement. Int. Immunopharmacol. 2020, 86, 106766.
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- ALLENSPACH, Martina; STEUER, Christian. α-Pinene: A never-ending story. Phytochemistry, v. 190, p. 112857, 2021. ISSN 0031-9422. DOI: https://doi.org/10.1016/j.phytochem.2021.112857.