α-Pineno: Da biossíntese ao potencial terapêutico – O elo com a Cannabis sativa

Publicado em 08/01/26 | Atualizado em 08/01/26 | Leitura: 10 minutos

Alfa-pineno

No vasto e fascinante campo dos produtos naturais, os terpenos (ou isoprenoides) surgem como uma classe diversificada de compostos orgânicos com profundas implicações farmacológicas. Dentre eles, o α-Pineno, um monoterpeno bicíclico, abundante em resinas de coníferas (pinheiros) e em diversas outras plantas aromáticas, incluindo o alecrim (Rosmarinus officinalis) e a Cannabis sativa L., tem capturado a atenção da comunidade científica devido ao seu amplo espectro de atividades biológicas.¹

O α-Pineno confere o característico aroma resinoso de pinho e, como metabólito secundário, é sintetizado nas plantas através da via do mevalonato (MVA), a partir da condensação “cabeça-cauda” de unidades de isopreno (C5). É crucial notar que o α-Pineno existe em formas enantioméricas (isômeros α e β, cada um com enantiômeros (+) e (-), e essa quiralidade é determinante para a sua atividade biológica e potencial terapêutico.¹

No post de hoje, vamos nos aprofundar nas propriedades terapêuticas do α-Pineno, detalhando seus mecanismos moleculares e a sua relevância crescente no contexto da fitomedicina e da Cannabis medicinal.

O α-Pineno no complexo fitofarmacológico da Cannabis sativa

A Cannabis sativa L. é uma fonte rica de terpenos, que são reconhecidos por modular os processos fisiopatológicos subjacentes a várias condições, incluindo dor e inflamação. O α-Pineno é um monoterpeno comum encontrado nas quimiovariantes da Cannabis. Embora muitas vezes seja um constituinte minoritário, em certas variedades, especialmente alguns tipos “sativa” ou híbridos (como o quimiotipo Kilimanjaro), ele pode atingir níveis mais elevados, sendo por vezes o composto principal.²

No contexto da Cannabis medicinal, a importância do  α-Pineno está intimamente ligada ao conceito de Efeito Entourage. Essa hipótese sugere que os terpenos, mesmo em baixas concentrações, podem agir sinergisticamente para modular e potencializar os efeitos farmacológicos dos canabinoides, como o THC e o CBD (Canabidiol). Especificamente, o  α-Pineno pode contribuir para mitigar alguns efeitos adversos do THC, como o déficit de memória de curto prazo, devido à sua atividade inibitória sobre a enzima acetilcolinesterase (AChE).²

Para saber mais sobre o Efeito Entourage, acesse: Entenda o efeito entourage e por que a planta completa é melhor que suas partes isoladas – WeCann Academy

Embora alguns estudos sugiram que o Efeito Entourage não se deve à interação direta dos terpenos com os receptores canabinoides CB1 ou CB2, a modulação de outras vias neurais e inflamatórias, como veremos, torna o  α-Pineno um adjuvante promissor em formulações fitoterapêuticas.

Mecanismos farmacológicos chave do α-Pineno

As atividades do α-Pineno abrangem áreas vitais da prática clínica, desde a oncologia até a neurologia e o manejo da dor crônica.

1. Atividade Anti-inflamatória e Analgésica

O α-Pineno apresenta propriedades anti-inflamatórias significativas em diversos modelos pré-clínicos. Fisiologicamente, este monoterpeno é capaz de modular vias de sinalização cruciais envolvidas na resposta inflamatória, incluindo:

  • Inibição do NF-κB: O α-Pineno demonstrou inibir a ativação da viaNF-κB (Nuclear Factor kappa B) em macrófagos peritoneais. A supressão desta via de transcrição nuclear é fundamental, pois é uma central reguladora da expressão de genes pró-inflamatórios.3,4
  • Modulação de Citocinas: Ao inibir o o NF-κB, o α-Pineno reduz a formação de citocinas pró-inflamatórias, como a Interleucina-6 (IL-6) e o Fator de Necrose Tumoral-α (TNF-α).³
  • Inibição da COX-2: Estudos indicam que o α-Pineno, presente em óleos essenciais como o de olíbano (Boswellia carterii), contribui para a atividade analgésica tópica e anti-inflamatória pela inibição da ciclo-oxigenase-2 (COX-2).5
  • Antinocicepção: Em modelos de dor, o α-Pineno foi capaz de reduzir a nocicepção e tem sido sugerida a sua interação com o sistema opioide, uma vez que a resposta antinociceptiva foi parcialmente inibida pela naloxona. O monoterpeno também é eficaz em modelos de hiperalgesia neuropática, prevenindo a hipersensibilidade mecânica, com eficácia comparável à gabapentina em alguns modelos pré-clínicos.6,7

 

2. Neuroproteção e Efeitos sobre o Sistema Nervoso Central (SNC)

O α-Pineno é uma molécula lipofílica que consegue atravessar a barreira hematoencefálica, permitindo sua ação no SNC.

  • Modulação GABAA: O α-Pineno atua como um modulador alostérico positivo dos receptores GABAA, que são alvos centrais para a ação sedativa e ansiolítica. Em camundongos, o α-Pineno demonstrou melhorar a qualidade do sono, reduzindo a latência do sono e aumentando a duração do sono NREMS (Non-Rapid Eye Movement Sleep), através da ligação aos receptores GABAA-benzodiazepina.¹
  • Ação Neuroprotetora: Possui potencial neuroprotetor em doenças neurodegenerativas (como Alzheimer e Parkinson). Demonstrou inibir a acetilcolinesterase (AChE), enzima chave na patogênese da doença de Alzheimer, e melhorar o aprendizado e a memória em modelos de camundongos. Também protege o sistema nervoso ao atenuar o estresse oxidativo induzido por H2O2 em células PC12.¹
  • Anticonvulsivante: Foi demonstrada a capacidade do α-Pineno em reduzir convulsões e diminuir o estresse oxidativo em modelos animais tratados com pentilenotetrazol (PTZ).¹

 

3. Efeitos Anticâncer e Antimetastáticos

O α-Pineno tem sido explorado como um potencial agente anticâncer, com foco particular no melanoma maligno.

  • Indução de Apoptose: Em modelos de melanoma murino (células B16F10), o α-Pineno demonstrou induzir apoptose através de mecanismos como a disrupção precoce do potencial mitocondrial, formação de espécies reativas de oxigênio (ROS), aumento da atividade da caspase-3, fragmentação do DNA e exposição de fosfatidilserina na superfície celular.¹
  • Inibição de Metástase e Proliferação: Foi reportado que o α-Pineno  isolado de Schinus terebinthifolius confere proteção antimetastática em modelos de melanoma. Adicionalmente, o monoterpeno inibe a proliferação de células de carcinoma hepatocelular (fígado), induzindo a parada do ciclo celular na fase G2/M.8

 

4. Outras Atividades

O α-Pineno também exibe uma variedade de outras atividades clinicamente relevantes:

  • Antimicrobiano: Demonstra atividade antibacteriana contra estirpes Gram-positivas e Gram-negativas, incluindo Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), e potencial antifúngico.9
  • Gastroprotetor: Apresenta atividade antiulcerogênica significativa, protegendo contra lesões gástricas agudas induzidas por etanol e indometacina.²
  • Broncodilatador: O isômero α-Pineno, juntamente com o seu isômero β-Pineno, pode melhorar o fluxo de ar para os pulmões, sendo um componente ativo em preparações utilizadas para bronquite e obstrução pulmonar crônica.9

 

Desafios e Perspectivas Futuras

Apesar do robusto potencial pré-clínico, a tradução do α-Pineno para a prática clínica enfrenta desafios significativos, principalmente relacionados à sua farmacocinética. Sendo um composto altamente volátil e lipofílico, o α-Pineno possui baixa biodisponibilidade oral, metabolismo hepático rápido e uma meia-vida curta, resultando em exposição sistêmica limitada e imprevisível após a dosagem convencional.

Para superar essas barreiras e acessar todo o potencial terapêutico do α-Pineno, é importante o desenvolvimento de formulações otimizadas que melhorem sua solubilidade e absorção, como nanoformulações ou sistemas de liberação auto-emulsificantes (SEDDS).²

Conclusão

À medida que o conhecimento sobre terpenos avança, o α-Pineno se destaca como um dos compostos mais promissores dentro e fora do universo da Cannabis medicinal. Para os médicos, compreender seu potencial não é mais um diferencial — é uma necessidade diante de um cenário onde terapias integrativas, mecanismos moleculares e abordagens personalizadas ganham espaço na prática clínica.

O estudo do α-Pineno vai muito além de reconhecer seu aroma característico: envolve dominar suas ações anti-inflamatórias, neuromodulatórias, analgésicas, broncodilatadoras e até antineoplásicas, além de entender como ele interage com canabinoides no fitocomplexo da cannabis, contribuindo para o Efeito Entourage. Esse conhecimento exige profundidade científica, atualização constante e capacidade de integrar evidências pré-clínicas emergentes às decisões terapêuticas.

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Assim como a Cannabis medicinal representa uma mudança de paradigma, os terpenos — e especialmente o α-Pineno — ampliam ainda mais esse horizonte, oferecendo novas interpretações farmacológicas e potenciais aplicações clínicas. Estar preparado para essa evolução significa compreender não apenas o que o α-Pineno faz, mas como, quando e para quem ele pode fazer a diferença.

Nesse contexto, iniciativas educacionais especializadas tornam-se estratégicas para médicos que desejam liderar essa nova fase da fitomedicina baseada em evidências. Dominar o papel do α-Pineno é um passo essencial para quem busca integrar conhecimento, segurança e inovação na prática clínica contemporânea.

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Referências

  1. Salehi, Bahare et al. “Therapeutic Potential of α- and β-Pinene: A Miracle Gift of Nature.” Biomolecules vol. 9,11 738. 14 Nov. 2019, doi:10.3390/biom9110738
  2. Alfieri, Aniello et al. “Phytochemical Modulators of Nociception: A Review of Cannabis Terpenes in Chronic Pain Syndromes.” Pharmaceuticals (Basel, Switzerland) vol. 18,8 1100. 24 Jul. 2025, doi:10.3390/ph18081100
  3. Kim, D.S.; Lee, H.J.; Jeon, Y.D.; Han, Y.H.; Kee, J.Y.; Kim, H.J.; Shin, H.J.; Kang, J.; Lee, B.S.; Kim, S.H.; et al. Alpha-Pinene Exhibits Anti-Inflammatory Activity Through the Suppression of MAPKs and the NF-kappaB Pathway in Mouse Peritoneal Macrophages. Am. J. Chin. Med. 2015, 43, 731–742. 
  4. Takeda, M. Neurophysiological Mechanisms Underlying the Attenuation of Nociceptive and Pathological Pain by Phytochemicals: Clinical Application as Therapeutic Agents. Prog. Neurobiol. 2024, 11, 1–13.
  5. Yeo, D.; Hwang, S.J.; Song, Y.S.; Lee, H.J. Humulene Inhibits Acute Gastric Mucosal Injury by Enhancing Mucosal Integrity. Antioxidants 2021, 10, 761. 
  6. Rahbar, I.; Abbasnejad, M.; Haghani, J.; Raoof, M.; Kooshki, R.; Esmaeili-Mahani, S. The effect of central administration of alpha-pinene on capsaicin-induced dental pulp nociception. Int. Endod. J. 2019, 52, 307–317.
  7. Araujo-Filho, H.G.; Pereira, E.W.M.; Heimfarth, L.; Souza Monteiro, B.; Santos Passos, F.R.; Siqueira-Lima, P.; Gandhi, S.R.; Viana Dos Santos, M.R.; Guedes da Silva Almeida, J.R.; Picot, L.; et al. Limonene, a food additive, and its active metabolite perillyl alcohol improve regeneration and attenuate neuropathic pain after peripheral nerve injury: Evidence for IL-1beta, TNF-alpha, GAP, NGF and ERK involvement. Int. Immunopharmacol. 2020, 86, 106766. 
  8. Ahmad, S. B., Rehman, M. U., Fatima, B., Ahmad, B., Hussain, I., Ahmad, S. P., Farooq, A., Muzamil, S., Razzaq, R., Rashid, S. M., & Ahmad, Bhat S. (2018). Antifibrotic effects of D-limonene (5(1-methyl-4-[1-meth-ylethenyl]) cyclohexane) in CCl4 induced liver toxicity in Wistar rats. Environmental Toxicology, 33(3), 361–369. https://www.ncbi.nlm.nih. gov/pubme d/29251412
  9. ALLENSPACH, Martina; STEUER, Christian. α-Pinene: A never-ending story. Phytochemistry, v. 190, p. 112857, 2021. ISSN 0031-9422. DOI: https://doi.org/10.1016/j.phytochem.2021.112857.

 

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