Canabinoides Sintéticos (K2/Spice): Toxicologia e a Diferença Farmacológica que Salva Vidas na Emergência

Publicado em 26/02/26 | Atualizado em 26/02/26 | Leitura: 13 minutos

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Os Canabinoides Sintéticos (K2, Spice) são comercializados erroneamente como análogos inofensivos da planta, mas representam uma classe de compostos de altíssima periculosidade. Diferente do Δ9-THC natural (um agonista parcial do receptor CB1), os sintéticos são agonistas totais, com afinidade de ligação até cem vezes maior, desencadeando toxicidade multissistêmica severa — incluindo psicose aguda, infarto do miocárdio, lesão renal e falência hepática. Este artigo revisa a farmacopatologia dessas substâncias e traça a linha divisória inquestionável entre as falsas cópias ilícitas e a prescrição segura da Medicina Endocanabinoide.

O Desafio Toxicológico: K2, Spice e a ameaça das Novas Substâncias Psicoativas (NSP).

Os Canabinoides Sintéticos (CS), amplamente difundidos no mercado ilícito sob termos coloquiais como K2, Spice ou “maconha sintética,” surgiram como um grave e complexo desafio para a toxicologia e a saúde pública contemporânea. Essas substâncias não são análogos inofensivos da Cannabis natural; são Novas Substâncias Psicoativas (NSP) — compostos químicos desenvolvidos em laboratório, que, quando desviados para o uso recreativo, apresentam um risco significativamente elevado de intoxicação aguda e desfechos potencialmente fatais. 

Para a comunidade médica, é fundamental compreender não apenas as designações de mercado ilícito, mas sobretudo a farmacocinética atípica e a potência extremada que fundamentam a sua relevância clínica e o manejo emergencial. No post de hoje, vamos explorar detalhadamente os desafios, as implicações fisiopatológicas e a real importância clínica dessas substâncias.

Farmacodinâmica do Perigo: Agonistas Totais (Sintéticos) vs. Agonistas Parciais (Fitocanabinoides).

Canabinoides são um grupo diversificado de compostos químicos que interagem com o Sistema Endocanabinoide (SEC), um complexo sistema de sinalização neuro-modulatório. O SEC regula diversas funções fisiológicas, incluindo dor, humor, apetite e cognição, primariamente por meio dos receptores CB1 (predominantemente no Sistema Nervoso Central – SNC) e CB2 (predominantemente em células imunológicas e tecidos periféricos).¹

Os canabinoides podem ser:

  1. Fitocanabinoides: Originados da planta Cannabis (como o Δ9-THC e o CBD).
  2. Endocanabinoides: Produzidos endogenamente (ex.: anandamida e 2-AG).
  3. Canabinoides Sintéticos (CS): Compostos desenvolvidos em laboratório.

Risco farmacológico

Os Canabinoides Sintéticos são uma vasta e crescente classe de Novas Substâncias Psicoativas (NSP) quimicamente projetadas para imitar os efeitos do Δ9-THC. Contudo, é na farmacologia que reside o seu perigo clínico.²

Em contraste com o Δ9-THC, que age primariamente como um agonista parcial dos receptores CB1 e CB2, a maioria dos CS (como AB-CHMINACA, JWH-018 ou HU210) é projetada para atuar como agonista completo. Isso resulta em uma afinidade de ligação muito maior, tornando-os de dez a cem vezes mais potentes que o Δ9-THC.²

Essa hiperativação do SEC não é o único mecanismo de toxicidade. Há evidências de que os CS também interagem com alvos não canabinoides — como os receptores do potencial transitório vaniloide 1 (TRPV1) ou os receptores órfãos acoplados à proteína G (GPR55, GPR18). Essa sinalização “off-target” contribui para o perfil de toxicidade diversificado e a imprevisibilidade dos quadros clínicos.²

Imprevisibilidade do mercado ilícito e composição

No mercado ilícito, os CS são vendidos sob designações como Spice, K2, Black Mamba, e outros. A grande questão de saúde pública é a natureza imprevisível desses produtos, que são comumente:

  1. Misturas mutáveis: Contêm misturas de múltiplos agonistas potentes de receptor CB1, como a série JWH-x, AB-x ou 5-FLOURO-x.
  2. Desafio Regulatório: Embora a US Drug Enforcement Administration (DEA) inclua muitos CS em sua Lista I, a engenharia química rápida resulta em centenas de novos compostos “recém-criados”, circulando globalmente e fugindo à detecção em screenings toxicológicos de rotina.

Efeitos Multissistêmicos Agudos

A característica mais preocupante dos canabinoides sintéticos é sua capacidade de induzir uma toxicidade multissistêmica grave, facilitada pela ampla distribuição dos receptores canabinoides CB1 e CB2 em diversos tecidos. Os efeitos adversos, que frequentemente demandam intervenção de emergência, extrapolam o domínio neuropsiquiátrico.

Efeitos Neurológicos e Psiquiátricos

O Sistema Nervoso Central (SNC) é intensamente afetado devido à extensa distribuição de receptores canabinoides em áreas como córtex cerebral, hipocampo, gânglios da base e amígdala.

  • Manifestações Agudas: Incluem sonolência, tontura, letargia, confusão, delírio, ansiedade e, criticamente, crises convulsivas. O desempenho motor também é frequentemente prejudicado.³
  • Psicose: A psicose foi descrita como o efeito tóxico psiquiátrico mais grave do uso prolongado de canabinoides sintéticos, não sendo comumente relatada com o uso de canabinoides naturais (possivelmente devido ao efeito protetor do canabidiol, ausente nos CS ilícitos, e às baixas doses frequentemente utilizadas para fins medicinais).4
  • Neurotoxicidade Molecular: Mecanismos de neurotoxicidade induzida por canabinoides sintéticos envolvem a ativação da via MAPK, o aumento do estresse oxidativo com formação de Espécies Reativas de Oxigênio (ROS), a apoptose de neurônios mediada por caspase-3 (via CB1R), e o comprometimento da função mitocondrial (redução do potencial de membrana e respiração celular prejudicada).²

A gravidade dos quadros psicóticos e neurotóxicos induzidos por essas Novas Substâncias Psicoativas (NSP) não se deve apenas ao agonismo total e descontrolado do receptor CB1, mas também a uma ausência farmacológica fundamental: o Canabidiol (CBD). Nas misturas sintéticas ilícitas, esse “freio” neuroprotetor natural inexiste, deixando o cérebro totalmente vulnerável à excitotoxicidade e à hiperativação simpática. 

Na prática clínica ética, a medicina utiliza exatamente essa propriedade moduladora a favor do paciente. Para entender como compostos padronizados são empregados para o efeito diametralmente oposto — promovendo ansiólise, proteção neuronal e estabilidade —, leia nosso post sobre Canabidiol (CBD): Uso e benefícios – WeCann Academy

Efeitos Cardiovasculares

A toxicidade cardíaca aguda é uma das principais causas de mortalidade por CS. As complicações cardiovasculares estão bem documentadas e incluem: hipertensão arterial, taquicardia, arritmias (fibrilação ventricular/atrial) e eventos isquêmicos como Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), mesmo em pacientes jovens sem comorbidades.2,5

  • Mecanismos de Cardiotoxicidade: Envolvem a ativação de CB1 que desencadeia a via de sinalização da apoptose (via p38 e JNK MAPKs) e distúrbios na sinalização Redox, levando a estresse oxidativo e lesão miocárdica. A ativação de CB1 no miocárdio também perturba a dinâmica mitocondrial, resultando em apoptose celular.6
  • Estimulação Simpática: A ativação intensa de receptores CB1 no SNC e no coração provoca uma poderosa estimulação do Sistema Nervoso Simpático e inibição do Parassimpático, resultando em aumento desenfreado da contratilidade cardíaca, da carga de trabalho e do consumo de oxigênio.7

Efeitos Renais e Hepáticos

  • Lesão Renal Aguda (LRA): Embora fosse considerada uma complicação incomum, numerosos relatos associaram a ingestão de CS à LRA em adultos jovens e adolescentes saudáveis. A fisiopatologia está ligada à necrose tubular aguda e, em nível celular, à disfunção mitocondrial nas células do túbulo proximal (HK-2), que culmina em apoptose celular (mediada por CB1R e CB2R). A biotransformação hepática dos CS também pode gerar metabólitos nefrotóxicos circulantes.8,9
  • Lesão Hepática Aguda:  O consumo crônico de Canabinoides Sintéticos tem sido associado a quadros de hepatite tóxica e insuficiência hepática. A fisiopatologia sugere que os mecanismos primários envolvem o estresse oxidativo mitocondrial e uma intensa resposta inflamatória. Contudo, a ativação direta dos receptores CB1 e CB2 em hepatócitos também é considerada um mecanismo potencial subjacente à hepatotoxicidade induzida por CS.10
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Atuação dos canabinoides sintéticos e riscos associados. Fonte: Alzu’bi, A., Almahasneh, F., Khasawneh, R. et al. The synthetic cannabinoids menace: a review of health risks and toxicity. Eur J Med Res 29, 49 (2024). https://doi.org/10.1186/s40001-023-01443-6

Grupos de canabinoides sintéticos: Séries JWH, HU e a mutação do mercado ilícito.

A vasta e mutável família dos canabinoides sintéticos é classificada por sua estrutura química e origem de laboratório. É importante que os médicos reconheçam a nomenclatura destes grupos, pois ela está diretamente ligada à sua potência e perfil de risco:

  • Série JWH-x: O grupo mais notório no contexto de abuso (associado a produtos como Spice e K2), nomeado em homenagem a John W. Huffman. Embora inicialmente desenvolvidos para pesquisa, muitos membros desta série foram desviados e estão envolvidos em inúmeras fatalidades, levando à sua proibição global. Este grupo ilustra a transição de compostos de pesquisa para agentes ilícitos de alto risco.11
  • Série HU-x: Carrega as iniciais da Universidade Hebraica. Esta série demonstra a diversidade farmacológica dentro de uma mesma família: o HU-210 é um potente agonista CB1/CB2, com alta eficácia de ligação, enquanto o HU-211 atua por vias não-canabinoides, funcionando como um antagonista NMDA — um mecanismo relevante para estudos em neurociência.11
  • Série SR-x (Rimonabanto): Inclui o Rimonabanto (SR-141716A), que é um antagonista seletivo do receptor CB1. Foi comercializado para perda de peso, mas foi retirado do mercado devido a graves efeitos adversos psiquiátricos (depressão e tendências suicidas). Sua existência sublinha o potencial terapêutico (como ferramenta de pesquisa) e, ao mesmo tempo, os riscos sistêmicos da modulação do CB1.11
  • Classe 5F: Representada por compostos como o 5F-MDMB-PICA, esta classe é notável por conter alguns dos CS mais recentemente detectados no mercado ilícito. São caracterizados por sua potência extrema e têm sido associados a uma alta incidência de efeitos adversos graves e mortes, representando um desafio constante na vigilância toxicológica.11

Segurança Clínica: A linha divisória entre o ilícito e a Medicina Endocanabinoide.

Para a comunidade médica, o domínio do tema dos canabinoides sintéticos transcende o mero conhecimento toxicológico; ele representa um imperativo educacional e clínico fundamental para o futuro da medicina canabinoide.

É importante que o médico saiba diferenciar categoricamente a toxicologia dos CS ilícitos (K2, Spice, etc.) da farmacologia dos fitocanabinoides com potencial terapêutico (como o CBD e o Δ9-THC). Enquanto os CS são agonistas totais, hiperpotentes e multissistêmicos – responsáveis pelos graves quadros de emergência descritos – os canabinoides naturais ou suas versões farmacêuticas agem com afinidades e mecanismos distintos, oferecendo potencial para o manejo de diversas patologias, como dor crônica, epilepsia refratária e esclerose múltipla. Dominar esse conhecimento é fundamental para incorporar a cannabis medicinal como ferramenta terapêutica segura na prática médica.

A linha divisória definitiva entre a toxicologia de rua e a terapêutica de precisão é o domínio farmacológico do médico. Contudo, dominar a bioquímica no consultório não basta se o paciente continuar refém do preconceito, da desinformação ou do medo de intoxicação. O seu papel transcende a prescrição; você precisa atuar como um educador em saúde, traduzindo essa segurança clínica para garantir a adesão ao tratamento. Aprenda a conduzir essa comunicação de forma assertiva, técnica e acolhedora em nosso Guia rápido: Como orientar seu paciente sobre cannabis medicinal

O conhecimento aprofundado capacita o médico a atuar como um educador de saúde e um agente de mudança. Ao dominar os riscos farmacológicos dos CS e as evidências de segurança e eficácia dos fitocanabinoides, o profissional pode desmistificar o uso clínico dos canabinoides, alertando os pacientes sobre a ameaça real e potencialmente letal dos canabinoides sintéticos e permitindo que pacientes elegíveis acessem tratamentos à base de fitocanabinoides seguros e potencialmente eficazes para transtornos crônicos, refratários e incapacitantes de saúde.

A Linha Divisória entre a Toxicologia e a Medicina de Precisão

Diante da desinformação e da ameaça das substâncias sintéticas, o médico deve atuar como o verdadeiro escudo científico do paciente. A confusão entre drogas de abuso e terapias controladas afasta pacientes graves de tratamentos que poderiam devolver sua qualidade de vida.

A Medicina Endocanabinoide não possui espaço para “achismos” ou empirismo. Ela é pautada exclusivamente em receptores, farmacocinética e segurança clínica.

A Certificação Internacional em Medicina Endocanabinoide da WeCann Academy foi desenhada para blindar a sua prática clínica. Nela, você terá acesso ao mais alto rigor científico para:

  • Prescrever com Domínio Técnico: Entenda a farmacologia molecular e a janela terapêutica exata de cada fitocanabinoide.
  • Garantir Segurança Jurídica: Atue com respaldo nas melhores evidências e guidelines internacionais.
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Referências

  1. MONTAGNER,Patrícia; DE SALAS-QUIROGA, Adán. Tratado de Medicina Endocanabinoide.1. ed. WeCann Endocannabinoid Global Academy, 2023.
  2. Alzu’bi, A., Almahasneh, F., Khasawneh, R. et al. The synthetic cannabinoids menace: a review of health risks and toxicity. Eur J Med Res 29, 49 (2024). https://doi.org/10.1186/s40001-023-01443-6
  3. Basavarajappa BS, Subbanna S. CB1 receptor-mediated signaling underlies the hippocampal synaptic, learning, and memory deficits following treatment with JWH-081, a new component of spice/K2 preparations. Hippocampus. 2014;24:178–88.
  4. Fattore L. Synthetic cannabinoids-further evidence supporting the relationship between cannabinoids and psychosis. Biol Psychiatry Biol Psychiatry. 2016;79:539–48.
  5. Atik SU, Dedeoglu R, Varol F, Çam H, Eroğlu AG, Saltık L. Cardiovascular side effects related with use of synthetic cannabinoids “bonzai” : two case reports. Turk pediatri arsivi. 2015;50(1):61–4.
  6. Pacher P, Steffens S, Haskó G, Schindler TH, Kunos G. Cardiovascular effects of marijuana and synthetic cannabinoids: the good, the bad, and the ugly. Nat Rev Cardiol. 2018;15:151–66.
  7. Singh A, Saluja S, Kumar A, Agrawal S, Thind M, Nanda S, et al. Cardiovascular complications of marijuana and related substances: a review. Cardiol Therapy. 2018;7:45–59.
  8. Silva JP, Araújo AM, de Pinho PG, Carmo H, Carvalho F. Synthetic cannabinoids JWH-122 and THJ-2201 disrupt endocannabinoid-regulated mitochondrial function and activate apoptotic pathways as a primary mechanism of in vitro nephrotoxicity at in vivo relevant concentrations. Toxicol Sci. 2019;169:422–35.
  9. Silva JP, Carmo H, Carvalho F. The synthetic cannabinoid XLR-11 induces in vitro nephrotoxicity by impairment of endocannabinoid-mediated regulation of mitochondrial function homeostasis and triggering of apoptosis. Toxicol Lett. 2018;287:59–69.
  10. Sheikh IA, Lukšič M, Ferstenberg R, Culpepper-Morgan JA. SPICE/K2 synthetic marijuana-induced toxic hepatitis treated with N-acetylcysteine. Am J Case Rep. 2014;15:584–8.
  11. CannaKeys. Synthetic Cannabinoids. CannaKeys. Disponível em: https://cannakeys.com/synthetic-cannabinoids/.

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