Caso Clínico: Cicatrização de Úlcera Refratária (Calcifilaxia) com Canabinoides Tópicos

Publicado em 01/04/26 | Atualizado em 01/04/26 | Leitura: 15 minutos

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Paciente masculino, 85 anos, com calcifilaxia não urêmica, apresentando úlcera isquêmica extensa, necrótica e de dor lancinante, refratária ao uso de morfina sistêmica. Devido à estagnação da ferida na fase inflamatória, instituiu-se terapia canabinoide tópica bimodal: matriz hidrofílica (CBD + terpenos) no leito da lesão e base lipossomal na pele perilesional. A modulação dos receptores CB1 e CB2 cutâneos promoveu potente analgesia periférica, neovascularização e transição de macrófagos para o perfil pró-resolução (M2). O fechamento completo da úlcera ocorreu em 74 dias, acompanhado de melhora funcional e desprescrição de opioides.

Apresentação do Caso Clínico

Paciente masculino, 85 anos, com histórico de hipertensão arterial sistêmica, doença arterial coronariana e dislipidemia, evoluiu com diagnóstico de calcifilaxia não urêmica — condição rara e potencialmente fatal, caracterizada por calcificação de arteríolas dérmicas e subcutâneas, culminando em isquemia progressiva, necrose cutânea e formação de úlceras crônicas extremamente dolorosas.

A história natural da doença é notoriamente agressiva. O quadro inicia-se, em geral, com placas violáceas dolorosas e áreas de livedo reticularis, que rapidamente evoluem para necrose tecidual. A oclusão microvascular sustentada impede adequada perfusão, perpetuando hipóxia local, inflamação crônica e degradação da matriz extracelular. A ulceração subsequente torna-se profunda, de difícil cicatrização, com alto risco de infecção secundária — principal causa de mortalidade nesses pacientes.

No momento da avaliação, o paciente apresentava úlcera extensa, com áreas necróticas e exsudato inflamatório persistente. A dor era descrita como contínua, lancinante, com exacerbações importantes à manipulação do leito da ferida.

Do ponto de vista farmacológico, o paciente encontrava-se em uso regular de morfina para analgesia basal, com tramadol prescrito para dor de escape e dipirona conforme necessidade. Mantinha ainda ácido acetilsalicílico (AAS), atorvastatina, losartana e hidroclorotiazida para controle cardiovascular, além de suplementação de vitamina D e complexo B como suporte metabólico.

Apesar desse regime terapêutico, o controle álgico permanecia insatisfatório. A dependência de opioides já se associava a constipação importante e sonolência diurna, agravando a fragilidade clínica. Paralelamente, a lesão mantinha evolução recalcitrante, sem sinais consistentes de progressão para fase de granulação.

Funcionalmente, observava-se limitação significativa da mobilidade, redução do apetite e declínio global da qualidade de vida — cenário que reflete a espiral fisiopatológica da calcifilaxia avançada: dor intensa, inflamação persistente, hipóxia tecidual e falência da cicatrização.

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Exame Físico 

Sinais Vitais (SSVV): Pressão arterial (PA), frequência cardíaca (FC), frequência respiratória (FR) e temperatura axilar (Tax) estáveis, sem alterações hemodinâmicas no momento da avaliação.

Aparelho Respiratório (AR): Tórax simétrico, expansibilidade pulmonar preservada (EPP), murmúrio vesicular bilateralmente audível, sem ruídos adventícios.

Aparelho Cardiovascular (ACV): Bulhas rítmicas, normofonéticas (BNF), em dois tempos, sem sopros audíveis. Pulsos periféricos palpáveis, porém com redução de amplitude distal na área acometida.

Abdômen (ABD): Plano, flácido, indolor à palpação superficial e profunda, ruídos hidroaéreos presentes, sem visceromegalias.

Extremidades (EXT): Presença de úlcera extensa em região acometida, com áreas de necrose cutânea, bordas irregulares e tecido de granulação escasso. Observava-se exsudato inflamatório persistente e halo perilesional eritemato-edematoso, compatível com inflamação crônica ativa. A dor era intensa à palpação, inclusive ao toque leve, sugerindo componente neuropático e isquêmico associado.

Lista de Problemas

  1. Úlcera crônica isquêmica de difícil cicatrização
  2. Dor intensa refratária
  3. Inflamação persistente com degradação tecidual
  4. Dependência de analgésicos sistêmicos (incluindo opioides)
  5. Risco elevado de piora funcional e infecciosa

Tratamento com Cannabis Medicinal

Diante da refratariedade da lesão e da dor persistente, instituiu-se um protocolo estruturado de terapia tópica com cannabis medicinal, cuidadosamente formulado para atuar simultaneamente no leito ulcerado e no tecido perilesional íntegro. A estratégia baseou-se na utilização de duas preparações farmacotécnicas complementares, com composições idênticas, porém veículos distintos, respeitando as diferenças biofísicas entre tecido desnudo e pele íntegra.

Foi instituído protocolo tópico diário com duas formulações distintas:

Preparação VS-12

No leito da ferida, foi utilizada a preparação VS-12, aplicada diretamente sobre a área ulcerada uma vez ao dia, após limpeza adequada com técnica estéril. O veículo consistia na combinação de ácido hialurônico e gel de Aloe vera na proporção 1:1 (v/v), matriz hidrofílica capaz de manter hidratação local, favorecer ambiente úmido controlado e permitir adequada difusão de compostos lipofílicos no tecido apolar exposto. 

A formulação continha canabidiol (CBD) na concentração de 3,75 mg/mL e tetraidrocanabinol (THC) em concentração residual inferior a 1 mg/mL, além do terpeno β-cariofileno (152,69 mg/mL) e dos flavonoides quercetina (31,25 mg/mL), diosmina (25,31 mg/mL) e hesperidina (2,5 mg/mL). 

A aplicação era realizada em camada fina, suficiente para recobrir toda a extensão da úlcera, seguida de curativo secundário não oclusivo.

Preparação VS-14

Para o tecido perilesional íntegro, utilizou-se a preparação VS-14, com as mesmas concentrações de princípios ativos, porém veiculadas em base lipossomal. A escolha desse sistema de entrega foi determinante: a pele intacta possui estrato córneo funcional, estrutura polar e altamente organizada que dificulta a penetração de moléculas lipofílicas. 

Os lipossomas atuam como carreadores fosfolipídicos, facilitando a difusão transdérmica dos fitocanabinoides e terpenos até a derme profunda e microvasculatura adjacente. Essa aplicação também era realizada uma vez ao dia, abrangendo halo de aproximadamente 2 a 3 cm ao redor da lesão.

Racional Terapêutico

A abordagem farmacológica foi desenhada a partir da compreensão da fisiopatologia da ferida crônica na calcifilaxia. Nessas lesões, a interrupção da perfusão microvascular leva à hipóxia persistente, ativação sustentada de citocinas pró-inflamatórias e hiperexpressão de metaloproteinases da matriz (MMPs), que degradam continuamente o colágeno recém-formado. A ferida permanece, portanto, biologicamente “presa” na fase inflamatória. A aplicação local de canabinoides buscou modular esse microambiente inflamatório e permitir a progressão para fase proliferativa.

No contexto da calcifilaxia não urêmica, a ferida crônica encontra-se em um microambiente inflamatório persistente, com ativação imune local, liberação de citocinas pró-inflamatórias e falha em transitar para fases de granulação e remodelação. A estratégia terapêutica deste caso não foi apenas reduzir a inflamação de forma inespecífica, mas modular a resposta imunológica cutânea de maneira direcionada, promovendo a resolução tecidual funcional.

A modulação imunológica mediada pelo receptor CB2 desempenha papel central nesse redirecionamento, favorecendo a transição de macrófagos de um fenótipo inflamado (M1) para um perfil reparador (M2), com impacto direto na redução de citocinas como TNF-α, que estão envolvidas tanto na manutenção da inflamação crônica quanto na inibição da cicatrização. 

Essa ação é análoga ao que observamos em outras condições dermatológicas complexas, onde o sistema endocanabinoide atua para restabelecer a homeostase imunológica na pele. Para aprofundar o mecanismo fisiopatológico e a base científica dessa modulação cutânea, acesse nosso artigo sobre Como a Cannabis pode reduzir inflamação e irritação na dermatite atópica, que explora como os fitocanabinoides influenciam a regulação imunológica e a inflamação na pele de forma detalhada e fundamentada.

Justificativa Farmacológica

Do ponto de vista farmacodinâmico, o CBD exerceu papel central na redução de TNF-α e outras citocinas pró-inflamatórias, além de modular a atividade de queratinócitos e fibroblastos. 

O β-cariofileno, agonista seletivo de receptores CB2, potencializou a ação anti-inflamatória, favorecendo a transição fenotípica de macrófagos do perfil M1 (pró-inflamatório) para M2 (pró-resolução). Esse redirecionamento imunológico foi crucial para a organização da matriz extracelular e controle do dano tecidual.

No eixo regenerativo, a presença de canabinoides no leito da lesão associou-se à ativação de células-tronco cutâneas residentes, promovendo proliferação celular e diferenciação em novos queratinócitos funcionais. 

Observou-se, ao longo do tratamento, formação progressiva de tecido de granulação viável e epitelização organizada. A regulação da atividade fibroblástica contribuiu para deposição controlada de colágeno, evitando a cicatrização hipertrófica.

O THC residual, embora presente em concentração inferior a 1 mg/mL, desempenhou papel relevante na microcirculação local. Seu efeito vasodilatador, mediado por receptores CB1 e possivelmente por canais TRP, pode ter contribuído para melhora do aporte sanguíneo regional e estímulo à neovascularização — fator particularmente relevante em uma doença marcada por oclusão arteriolar.

Estratégia de Titulação

Por tratar-se de terapia tópica, não houve necessidade de titulação sistêmica progressiva. A posologia consistiu em aplicação diária contínua de ambas as formulações, com reavaliação clínica semanal nas primeiras semanas e monitoramento da área, profundidade e características do exsudato. A absorção sistêmica foi mínima, e não foram observados efeitos psicoativos ou alterações hemodinâmicas, mesmo em paciente idoso e polimedicado, reforçando o elevado perfil de segurança da via escolhida.

Abordagem Associada

A abordagem foi mantida em associação com cuidados locais convencionais de feridas e vigilância rigorosa para sinais infecciosos. Paralelamente, conforme a analgesia periférica se consolidou, realizou-se ajuste progressivo dos opioides sistêmicos. O efeito poupador foi clinicamente significativo, com redução substancial da necessidade de morfina e tramadol ao longo do seguimento.

Assim, a estratégia com cannabis medicinal não atuou apenas como adjuvante sintomático, mas como intervenção fisiopatologicamente orientada, capaz de modular inflamação, dor e regeneração tecidual de forma integrada e com segurança sistêmica.

Acompanhamento e Evolução Clínica

A resposta clínica foi rápida e objetivamente perceptível. Já nas primeiras semanas após o início das aplicações, o paciente relatou redução clinicamente significativa da dor, com diminuição progressiva dos episódios de exacerbação e melhora substancial do conforto basal — um dado particularmente relevante em uma condição classicamente marcada por dor desproporcional e refratária.

Do ponto de vista da regeneração tecidual, a evolução foi contínua, organizada e biologicamente consistente. Observou-se redução gradual do halo inflamatório, progressiva formação de tecido de granulação saudável e contração centrípeta das bordas da lesão. Após 74 dias de tratamento ininterrupto, alcançou-se o fechamento completo da úlcera — um desfecho expressivo quando contextualizado à história natural da calcifilaxia, cuja taxa de cicatrização costuma ser baixa e associada a elevada morbimortalidade.

O aspecto cicatricial também merece destaque: formou-se tecido macio, flexível, com adequada elasticidade e sem evidências de cicatriz hipertrófica ou retrações fibrosas significativas.

Em termos sistêmicos, houve impacto clínico relevante, com redução substancial da necessidade de analgésicos opioides e melhora funcional global. O paciente recuperou mobilidade, autonomia parcial nas atividades diárias e apresentou evidente ganho em qualidade de vida — um marcador terapêutico que, nesse contexto, transcende o simples fechamento da lesão cutânea.

A analgesia periférica alcançada com a aplicação tópica de canabinoides foi um ponto de virada no manejo deste caso. A dor intensa e contínua, que antes necessitava de opioides sistêmicos para qualquer controle mínimo, começou a regredir à medida que o microambiente tecidual deixou de enviar sinais nociceptivos persistentes ao sistema nervoso central. Essa resposta não ocorreu por supressão momentânea dos sintomas, mas por modulação do processamento nociceptivo local, com impacto direto na redução da entrada de estímulos dolorosos crônicos.

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O resultado clínico tornou possível a redução gradual da morfina e outros analgésicos sistêmicos, poupando o paciente de efeitos adversos típicos em idosos frágeis — como constipação severa, sedação excessiva e risco aumentado de delírio — e melhorando sua função global. 

Esse processo reflete um princípio mais amplo da prática clínica com cannabis medicinal: o efeito poupador de opioides não é apenas um benefício colateral, mas uma consequência previsível da neuromodulação fisiológica que ocorre quando se atua sobre receptores canabinoides e vias de dor periférica. 

Para explorar com mais profundidade os mecanismos e evidências que sustentam essa abordagem, veja o Guia para o tratamento da Dor Crônica com cannabis medicinal, que apresenta fundamentos, estratégias práticas e evidências clínicas relevantes para o manejo da dor crônica com base endocanabinoide.

Deep Dive: A Evolução Tecidual em 74 Dias (4 min) Visualizar a modulação biológica. Entenda as fases da cicatrização: veja como a aplicação tópica reduziu o halo eritematoso nas primeiras semanas, formou tecido de granulação viável e finalizou com uma contração de bordas sem fibrose hipertrófica.

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Conclusão

Este caso representa, de maneira paradigmática, o potencial terapêutico da modulação tópica do Sistema Endocanabinoide em feridas complexas e de difícil manejo. Em uma condição associada a dor intensa, necrose progressiva e prognóstico reservado, a intervenção proposta demonstrou que a abordagem farmacológica pode ir além do controle sintomático e alcançar modificação efetiva do microambiente tecidual.

O desfecho observado não foi fruto de uma intervenção isolada, mas da integração criteriosa de múltiplos elementos: a utilização de canabinoides em concentrações adequadas e terapeuticamente relevantes; a exploração racional do efeito entourage por meio da sinergia com terpenos e flavonoides; a escolha estratégica de veículos capazes de otimizar biodisponibilidade cutânea; e a aplicação direcionada aos diferentes compartimentos teciduais envolvidos na cascata isquêmica-inflamatória.

O resultado clínico foi duplo e clinicamente significativo: analgesia periférica consistente — com redução substancial da dependência de opioides — e regeneração tecidual completa em uma entidade considerada de altíssimo risco para falha terapêutica e complicações sistêmicas.

Mais do que um relato de cicatrização, trata-se de uma demonstração prática de que a medicina endocanabinoide, quando aplicada com rigor científico, pode intervir diretamente na cascata inflamatória, na disfunção endotelial e na progressão fibrótica, mudando o curso da patologia. O impacto final transcende o fechamento da lesão: traduz-se em recuperação funcional, redução de carga analgésica sistêmica e melhora mensurável da qualidade de vida.

Para o médico que lida com feridas complexas, dor refratária ou pacientes fragilizados por múltiplas comorbidades, este caso convida à reflexão: talvez estejamos diante não apenas de uma alternativa terapêutica, mas de um novo eixo de intervenção fisiológica — onde modulação, e não apenas supressão, torna-se o centro da estratégia clínica.

As informações pessoais contidas neste caso clínico foram modificadas para preservar a identidade e a imagem do paciente, mantendo, no entanto, a veracidade e a integridade dos dados clínicos. Este é um relato baseado em um caso real, fundamentado na documentação médica e nas observações clínicas realizadas durante o acompanhamento do paciente. A finalidade é compartilhar o tratamento e as estratégias adotadas em um cenário clínico de relevância, respeitando sempre a confidencialidade e a ética médica.

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