Explorando o sistema endocanabinoide: O que você precisa saber!

Publicado em 05/06/24 | Atualizado em 06/06/24 Leitura: 6 minutos

Sistema Endocanabinoide

O uso da Cannabis para fins medicinais tem uma origem milenar, mas foi apenas no século passado que a ciência começou a entender seu amplo potencial terapêutico. A chave para esses benefícios está no Sistema Endocanabinoide (SEC), um sistema regulatório vital presente em seres humanos e em todos os animais vertebrados. Este post detalha o funcionamento do SEC e as potencialidades da Cannabis como um agente de estabilidade e modulação desse sistema.

Funcionamento do Sistema Endocanabinoide: Uma Visão Geral.

O Sistema Endocanabinoide (SEC) é um sistema regulatório vital presente em seres humanos e em todos os vertebrados. Ele desempenha um papel fundamental na regulação de uma variedade de processos fisiológicos e patológicos do corpo humano. Os receptores canabinoides, CB1 e CB2, e seus ligantes estão amplamente distribuídos em todo o organismo, modulando diversas funções, incluindo desenvolvimento neural, gasto energético, regulação do apetite, função imunológica, cardiovascular e o ciclo do sono-vigília¹. 

Estudos científicos têm demonstrado que disfunções no SEC estão significativamente associadas ao desenvolvimento e progressão de diversas doenças, tais como enxaqueca, fibromialgia, Parkinson, Alzheimer, distúrbios gastrointestinais, síndrome metabólica, psoríase, entre outras. Essa correlação torna a modulação do SEC um alvo terapêutico promissor para médicos que buscam novas abordagens no tratamento de condições patológicas refratárias e incapacitantes.

Nosso foco está na compreensão do Sistema Endocanabinoide e seu papel crucial na manutenção da estabilidade fisiológica. Este sistema é composto por receptores, ligantes e enzimas, trabalha incessantemente para equilibrar as funções do nosso organismo. Antes de explorarmos a interação do SEC com seus receptores e os fitocanabinoides, é essencial esclarecer alguns conceitos-chave:

  • Endocanabinoides: Moléculas produzidas naturalmente pelo nosso corpo, presentes em humanos e animais vertebrados.
  • Moléculas Canabinoide-Like: Substâncias similares aos endocanabinoides, mas que se ligam a outros receptores canabinoides importantes para a regulação fisiológica.
  • Fitocanabinoides: Componentes derivados de plantas, como os encontrados na Cannabis, com potencial terapêutico.
  • Canabinoides Sintéticos: Moléculas criadas em laboratório para imitar os efeitos dos fitocanabinoides.

 

Essa compreensão é essencial para os médicos que buscam explorar o potencial terapêutico dos canabinoides e aprofundar seu conhecimento sobre sua interação com o Sistema Endocanabinoide., possibilitando oferecer tratamentos mais eficazes e personalizados aos pacientes.

Principais Receptores Canabinoides: CB1 e CB2

Os principais receptores canabinoides estudados até o momento são conhecidos como CB1 e CB2. O receptor CB1 é predominantemente encontrado no Sistema Nervoso Central, especialmente em regiões como o córtex, cerebelo, hipocampo e núcleos da base. Além disso, também está presente no Sistema Nervoso Entérico (SNE), células adiposas, células endoteliais, fígado e trato gastrointestinal.

Por outro lado, o receptor CB2 está amplamente distribuído nas células e tecidos do sistema imunológico, o que evidencia seu potencial anti-inflamatório e imunomodulador. A compreensão da distribuição e função desses receptores é essencial para os médicos que desejam explorar o potencial terapêutico da modulação do SEC em seus pacientes.

receptores cb1 e cb2
Localização dos receptores CB1 e CB2

Estimulação do Sistema Endocanabinoide: Mecanismos e Substâncias

O organismo humano é capaz de produzir seus próprios canabinoides, conhecidos como endocanabinoides, incluindo a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoil-glicerol (2AG). Esses endocanabinoides atuam como ligantes dos receptores canabinoides, exercendo efeitos específicos em diferentes áreas do corpo.

  • N-araquidonoil-etanolamina (AEA): Primeira substância endocanabinoide descoberta, a AEA, também conhecida como anandamida, liga-se aos receptores CB1, modulando dor, humor, apetite e memória.
  • 2-Araquidonoil-Glicerol (2AG): Abundante no Sistema Nervoso Central, atua tanto nos receptores CB1 quanto CB2, modulando a plasticidade sináptica dos processos de aprendizagem e memória.

 

Além dos endocanabinoides, a estimulação do SEC também pode ser alcançada por meio de substâncias encontradas na planta Cannabis, conhecidas como fitocanabinoides. O canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC) são dois fitocanabinoides amplamente estudados por sua capacidade de interagir com os receptores canabinoides e modular diversas funções corporais, ajudando a restaurar a homeostase.

Quais são as principais substâncias que atuam no sistema endocanabinoide?

Além das principais substâncias que atuam no Sistema Endocanabinoide, o canabidiol tem se destacado por seus efeitos terapêuticos em diversas condições patológicas, sem causar potenciais efeitos psicotrópicos associados ao tetrahidrocanabinol. O CBD interage com os receptores CB1 e CB2, modulando diversas funções corporais e contribuindo para o equilíbrio e bem-estar geral.

O CBD é reconhecido por sua ampla gama de efeitos terapêuticos, influenciando a resposta imunológica, inflamação, dor e processos neuropsiquiátricos. Estudos indicam que o CBD pode ser eficaz no tratamento de ansiedade², depressão³, dor crônica4, epilepsia5 e distúrbios neurodegenerativos, como Alzheimer e Parkinson6. Além de sua interação com os receptores canabinoides, o CBD também interage com outros receptores, como os serotoninérgicos e TRPV1, ampliando seu potencial terapêutico. 

Conclusão

Compreender o funcionamento do Sistema Endocanabinoide em toda a sua complexidade é essencial para a incorporação de medicamentos derivados de canabinoides na prática clínica. Essa compreensão permite oferecer alternativas terapêuticas seguras e eficazes, baseadas em evidências científicas. A modulação do SEC representa uma nova abordagem promissora para o tratamento de diversas condições patológicas, promovendo a homeostase e melhorando a qualidade de vida dos pacientes.

Referências

  1. Francischetti, E. A., & Genelhu de Abreu, V. (2006). O Sistema Endocanabinóide: Nova Perspectiva no Controle de Fatores de Risco Cardiometabólico. The Endocannabinoid System: A New Perspective for Cardiometabolic Risk Control. Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Rio de Janeiro, RJ. https://doi.org/10.1590/S0066-782X2006001700023
  2. Papagianni, E. P., & Stevenson, C. W. (2019). Cannabinoid Regulation of Fear and Anxiety: an Update. *Curr Psychiatry Rep*, 21(6), 38. DOI: 10.1007/s11920-019-1026-z.
  3. Poleszak, E., Wośko, S., Sławińska, K., Szopa, A., Wróbel, A., & Serefko, A. (2018). Cannabinoids in depressive disorders. *Life Sciences*, PMID: 30290188. DOI: 10.1016/j.lfs.2018.09.058.
  4. NUTT, D. J. et al. A Multicriteria Decision Analysis Comparing Pharmacotherapy for Chronic Neuropathic Pain, Including Cannabinoids and Cannabis-Based Medical Products. *Cannabis and Cannabinoid Research*, [S.l.], v. 6, n. 2, p. 153-167, 2021. DOI: 10.1089/can.2020.0129.
  5. Devinsky, O., Patel, A. D., Cross, J. H., Villanueva, V., Wirrell, E. C., Privitera, M., Greenwood, S. M., Roberts, C., Checketts, D., VanLandingham, K. E., Zuberi, S. M., & GWPCARE3 Study Group. (2018). Effect of Cannabidiol on Drop Seizures in the Lennox-Gastaut Syndrome. *New England Journal of Medicine*. DOI: 10.1056/NEJMoa1714631.
  6. Pérez-Olives, C., Rivas-Santisteban, R., Lillo, J., Navarro, G., & Franco, R. (2022). Recent Advances in the Potential of Cannabinoids for Neuroprotection in Alzheimer’s, Parkinson’s, and Huntington’s Diseases. *PMID: 33332005*. DOI: 10.1007/978-3-030-57369-0_6.
Esse texto foi elaborado pelo time de experts da WeCann, baseado nas evidências científicas partilhadas nas referências e, amparado na ampla experiência prescritiva dos profissionais.

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