Tudo que você precisa saber sobre as três principais quimiovariantes da Cannabis

Publicado em 10/06/24 | Atualizado em 10/06/24 Leitura: 6 minutos

CanabinoidesCannabis como Medicamento

A Cannabis, uma planta pertencente à família Cannabaceae, tem despertado o interesse de pesquisadores e profissionais da saúde devido a sua vasta gama de aplicações terapêuticas¹ . Originária da Eurásia, a Cannabis tem sido cultivada e utilizada por diferentes culturas ao longo da história por suas propriedades medicinais. Hoje, a ciência moderna continua a desvendar os complexos mecanismos de ação dos seus principais compostos, os fitocanabinoides, que incluem o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabinol), entre outros.

A adaptabilidade da Cannabis a diversas condições ambientais permitiu sua disseminação global, contribuindo para a diversidade genética e química da planta. Esta diversidade se reflete nas suas principais quimiovariantes, cada uma com perfis específicos de canabinoides e terpenos, que são essenciais nos efeitos terapêuticos. Neste post, explicaremos com detalhes as três principais quimiovariantes da Cannabis.

Conhecendo as principais quimiovariantes da Cannabis

Para uma exploração eficaz da cannabis medicinal, é crucial possuir um entendimento claro dos termos básicos relacionados à planta, bem como compreender os efeitos medicinais associados a ela. A Cannabis compreende um único gênero, dividido em três espécies primárias: sativa, indica e ruderalis¹. Grande parte dos efeitos medicinais atribuídos à Cannabis são predominantemente associados às espécies sativa e indica.

Além das espécies, existem milhares de variedades, que são classificadas com base em diferenças sensoriais (aroma, aparência, sensações), constituintes químicos (perfis de canabinoides ou terpenos) e experiências subjetivas (efeitos sobre o humor). Genótipo e fenótipo são termos utilizados para diferenciar as quimiovariantes da planta. O genótipo refere-se à composição genética da planta, enquanto fenótipo refere-se à expressão física influenciada por fatores ambientais.

Quando se trata de prever propriedades medicinais específicas e o potencial de efeitos adversos, as distinções mais importantes derivam de três quimiotipos (ou quimiovariantes) da Cannabis:

Quimiovariante Tipo I

  • Predominantemente ricas em THC
  • Alto potencial sedativo e relaxante
  • Maior potencial para alterações cognitivas e de humor
  • Janela terapêutica mais estreita entre efeitos terapêuticos e efeitos adversos
  • Baixo potencial para gerar dependência

Quimiovariante Tipo II

  • Proporcionalmente ricas em THC e CBD
  • Moderado potencial sedativo e relaxante
  • Moderado potencial para alterações cognitivas e de humor
  • Ampla janela terapêutica entre efeitos terapêuticos e potenciais efeitos adversos
  • Baixíssimo potencial para gerar dependência

Quimiovariante Tipo III

  • Predominantemente ricas em CBD
  • Praticamente não apresenta efeitos psicotrópicos
  • Não apresenta risco de gerar dependência
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Variantes da Cannabis

Inicialmente definidas as três quimiovariantes² básicas da Cannabis foram classificadas com base na quantidade de tetrahidrocanabinol (THC), canabidiol (CBD) e a proporção entre esses dois componentes. No entanto, a evolução da pesquisa trouxe à luz novas quimiovariantes e outras definições classificatórias.

Em adição às quimiovariantes tipo I, II e III, estudos posteriores identificaram variantes adicionais. A quimiovariante IV, identificada por Fournier et al. em 1987 ³, destaca-se por apresentar o Canabigerol (CBG) como o fitocanabinoide mais abundante. Essa quimiovariante, predominante em CBG, mostra relevância potencial para pacientes que sofrem de dor crônica, inflamações diversas e transtornos de ansiedade. Por outro lado, a quimiovariante V, proposta por Mandolino e Carboni em 2004, inclui variedades sem qualquer canabinoide detectável.

A compreensão das proporções ideais de THC e CBD é crucial para prescrições mais assertivas de cannabis medicinal. Enquanto o antigo modelo baseado na distinção entre sativa e indica perde relevância na prática médica, há um crescente foco nas proporções específicas entre THC e CBD, assim como em outras quimiovariantes possíveis. Pesquisas indicam que diferentes proporções podem ser mais adequadas para diferentes condições médicas, enfatizando a importância de uma abordagem individualizada e baseada em evidências para a prescrição de cannabis medicinal. 

Embora o CBD e o THC sejam os canabinoides mais conhecidos das quimiovariantes da Cannabis, essas espécies reúnem mais de 500 compostos químicos, entre canabinoides e não-canabinoides, todos alvos de pesquisa por seu potencial terapêutico. Os terpenos também compõem esse grupo de substâncias, sendo mais de 120 já descritos. Esses elementos são responsáveis pelo aroma das plantas e representam um arsenal terapêutico vastíssimo, interagindo com os canabinoides para estimular diversos efeitos fisiológicos e terapêuticos.

Conclusão

Ao acompanhar cuidadosamente pacientes que recebem prescrição de cannabis medicinal, é essencial avaliar a melhora dos sintomas e/ou a manifestação de sintomas adversos. Nesse contexto, uma abordagem cautelosa envolve traçar uma estratégia de prescrição com doses-alvo menores e um escalonamento de dose mais lento, visando priorizar a segurança e minimizar os efeitos colaterais. É  crucial contextualizar cada caso antes de selecionar o perfil de produto à base de cannabis e estabelecer uma estratégia terapêutica personalizada, levando em consideração as necessidades e peculiaridades de cada paciente. 

Compreender as diferenças entre as quimiovariantes THC-dominante, CBD-dominante e balanceada entre CBD e THC pode ser um passo crucial para maximizar os benefícios terapêuticos e minimizar os riscos associados ao uso de medicamentos à base de cannabis. Ao considerar as características específicas de cada quimiovariante, os profissionais médicos podem ajustar as prescrições de forma mais precisa, buscando otimizar os resultados terapêuticos para cada paciente. Essa compreensão permite uma abordagem mais personalizada e informada, que leva em conta não apenas as propriedades dos compostos presentes na cannabis, mas também as necessidades individuais de cada pessoa. Ao adotar essa perspectiva, é possível promover uma terapia mais eficaz e segura, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes tratados com cannabis medicinal.

Referências 

  1. André, C. M., Hausman, J.-F., & Guerriero, G. (2016). Cannabis sativa: The Plant of the Thousand and One Molecules. Frontiers in Plant Science, 7, 19. https://doi.org/10.3389/fpls.2016.00019
  2. SMALL, E., BECKSTEAD, H. Cannabinoid Phenotypes in Cannabis sativa. Nature 245, 147–148 (1973). https://doi.org/10.1038/245147a0
  3. Fournier, G., Richez-Dumanois, C., Duvezin, J., & Mathieu, J. P. (1987). Identification of a new chemotype in Cannabis sativa: cannabigerol-dominant plants, biogenetic and agronomic prospects. Planta Medica, 53(3), 277-280.
  4. Mandolino, G., & Carboni, A. (2004). Potential of marker-assisted selection in hemp genetic improvement. Euphytica, 140(1-2), 107-120.
Esse texto foi elaborado pelo time de experts da WeCann, baseado nas evidências científicas partilhadas nas referências e, amparado na ampla experiência prescritiva dos profissionais.

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