Caso Clínico: Uso de Cannabis medicinal em Câncer de Cólon com Metástases

Publicado em 19/01/26 | Atualizado em 19/01/26 | Leitura: 10 minutos

Caso clínico

Identificação

Paciente feminina, 41 anos.

Apresentação do Caso Clínico

A paciente buscou orientação médica para realizar tratamento com cannabis medicinal. Apresentava histórico de constipação crônica e suspeita de intolerância à lactose, com exames prévios (retossigmoidoscopia e colonoscopia) sem alterações. Em 2022, desenvolveu perda ponderal, aumento abdominal e dispneia, levando inicialmente à suspeita de gestação, logo descartada.

O diagnóstico de adenocarcinoma de cólon foi confirmado em março de 2022. A tomografia evidenciou metástases hepáticas, pulmonares, ovarianas e linfonodais. Foi submetida à ooforectomia e ressecção intestinal, sem necessidade de colostomia.

Iniciou quimioterapia para controle das metástases (regimes Xelox, Folfox e manutenção com F5uLv). Há aproximadamente 10 meses apresentou nódulo metastático em coluna lombar, associado a dor intensa.

A paciente referia dor intensa na coxa e joelho esquerdos, que era a localização que mais a incomodava. Seu humor estava bastante prejudicado, com muita ansiedade e sentimentos de depressão. Após a quimioterapia, sentia enjoo por 4 a 5 dias, e a dor atrapalhava suas atividades diárias, apesar das medicações.

Paciente com humor deprimido
Paciente com humor deprimido

Antecedentes patológicos

A paciente relatava histórico de depressão e um episódio de tentativa de suicidio em 2021 através de ingestão de medicamentos.

Para dor e sintomas associados, utilizava Gabapentina 300 mg 3x dia, Clonazepam 2mg (6 gotas 1 vez dia), 3 comprimidos de 20mg de Fluoxetina e Morfina 2 comprimidos de 20mg de 4 em 4 horas. A dor não apresentava melhora com essas medicações. 

Para manejo dos efeitos da quimio, usava Ondansetrona 8mg (de 8 em 8 horas), Omeprazol e Dexametasona 4mg (de 12 em 12 horas nos primeiros 3 a 5 dias da quimio), sem alívio perceptível para os enjoos.

Exame Físico

Geral

Estado Geral: Consciente, orientada no tempo e espaço, bom estado geral. Eutrófica, hidratada e corada. Ausência de sinais de desconforto respiratório ou dor aguda.

Sinais Vitais: Pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e temperatura corporal dentro dos parâmetros de normalidade.

Cabeça e Pescoço: Palpação de tireoide sem nódulos ou bócio, consistência normal.

AR: Murmúrio vesicular presente e simétrico em ambos os hemitórax, sem ruídos adventícios.

ACV: Ritmo cardíaco regular, bulhas normofonéticas em 2 tempos, sem sopros. Pulsos periféricos palpáveis e simétricos.

Sistema Nervoso: Alerta, com pensamento e linguagem fluentes. Força muscular 5/5 em todos os membros. Reflexos tendinosos profundos normais. Sensibilidade tátil, dolorosa e vibratória preservada em membros superiores e inferiores.

Estado Mental

Atenção: A atenção da paciente está preservada. Ela se mantém focada durante a entrevista, embora possa se distrair brevemente quando aborda tópicos que geram preocupação.

Sensopercepção: Não foram detectadas alterações sensoperceptivas, como alucinações auditivas ou visuais.

Memória: Preservada. A paciente consegue evocar eventos recentes e remotos de sua vida com detalhes e coerência.

Orientação: Preservada, tanto autopsiquicamente (em relação a si mesma) quanto alopsiquicamente (em relação ao tempo e espaço).

Consciência: Límpida. A paciente está lúcida, acordada e com plena percepção de si mesma e do ambiente.

Pensamento:

  • Curso: O curso do pensamento é ágil e coeso, sem evidência de lentificação (bradipsiquia).
  • Conteúdo: O conteúdo é dominado por preocupações e ruminações, principalmente sobre a qualidade de seu sono e a insatisfação com os tratamentos anteriores. Não há sinais de desesperança profunda ou ideação suicida.

Linguagem: O discurso é fluente e coerente, com volume e velocidade normais. O vocabulário é amplo, compatível com sua formação universitária.

Inteligência: O nível de inteligência se demonstra compatível com seu grau de escolaridade e histórico profissional.

Afeto:

  • Humor: Relatado como levemente triste.
  • Afeto: Modulado, e congruente com o conteúdo da fala. A expressão emocional é um tanto contida, mas não restrita.

Conduta: O ritmo psicomotor é normal. O contato visual é adequado e o comportamento geral é cooperativo.

Lista de Problemas

  • P1- Adenocarcinoma de Cólon Metastático, em tratamento quimioterápico. 
  • P2- Síndrome Dolorosa Crônica 
  • P3- Sintomas Psiquiátricos (Ansiedade/Depressão) refratários ao tratamento convencional.

Plano Terapêutico e Evolução

Tratamento com Cannabis 

O tratamento com cannabis medicinal foi introduzido com o objetivo de controlar a dor crônica refratária associada ao adenocarcinoma de cólon metastático, além de melhorar o humor, reduzir sintomas ansiosos e auxiliar no manejo das náuseas relacionadas à quimioterapia. 

Proposta Terapêutica Inicial 

Optou-se inicialmente pelo extrato Full Spectrum (79.14 mg/mL), cuja composição por gota continha 1,6 mg de CBD e 0,06 mg de THC. A paciente iniciou o uso com a posologia de 1 gota três vezes ao dia, com plano de titulação de aumento de 1 gota em cada tomada a cada três dias, respeitando a resposta clínica e a tolerabilidade.

Ajustes no Tratamento

Em aproximadamente doze dias de tratamento, a paciente encontrava-se utilizando 4 gotas três vezes ao dia. Nesse momento, relatou sonolência diurna, efeito adverso manejado com sucesso ao transferir 1 gota da dose matinal para o período noturno. 

Ao longo das semanas seguintes, a dose foi ajustada progressivamente até atingir, em 23 de março de 2024, a posologia de 5 gotas pela manhã, 6 gotas após o almoço e 6 gotas à noite, totalizando 17 gotas ao dia, equivalente a cerca de 27 mg CBD / dia + 1mg THC/dia. 

Devido à persistência de sintomas ansiosos residuais, foi proposto novo ajuste na dose noturna, recomendando-se o aumento de 1 gota a cada quatro dias até alcançar 9 gotas à noite, com dose total prevista de 20 gotas diárias, correspondendo a aproximadamente 32 mg CBD / dia + 1,2mg THC/dia. 

Início do Tratamento Específico para Efeitos Pós-Quimio (Náusea/Vômitos):

Para o manejo dos efeitos colaterais da quimioterapia, especialmente a náusea e os vômitos que persistiam por quatro a cinco dias após cada ciclo, mesmo com ondansetrona e dexametasona, foi introduzido um extrato rico em THC. Na época, estimou-se que cada gota continha cerca de 0,4 mg de THC (posteriormente atualizado para 12 mg/mL).

A dose inicial prescrita foi de 1 gota à noite, com orientação de aumentar 1 gota a cada quatro dias, podendo alcançar até 10 gotas conforme a resposta clínica (total aproximado de 4mg THC/dia). A proposta foi fundamentada na literatura que aponta o THC como componente mais eficaz no controle de emese induzida por quimioterapia.

Abordagem não-farmacológica (Ajustes Concomitantes)

Concomitantemente, foram feitos ajustes farmacológicos adicionais devido à melhora clínica significativa. A paciente pôde descontinuar a fluoxetina após evolução positiva do humor e redução consistente da dor. 

Além da abordagem medicamentosa, discutiu-se a importância do apoio familiar no manejo dos sintomas, com participação ativa da mãe, irmã e namorado, especialmente na fase pós-quimioterapia.

Evolução

O acompanhamento clínico foi realizado em intervalos semanais ou quinzenais, com titulações lentas e individualizadas conforme tolerabilidade. Para segurança e agilidade nos ajustes, a paciente teve suporte contínuo por WhatsApp. A evolução clínica foi notavelmente positiva. 

A dor, inicialmente intensa e incapacitante, apresentou melhora expressiva, com redução referida de 9 pontos em escala numérica. O uso de morfina tornou-se raro, evidenciando o efeito analgésico robusto dos canabinoides. A paciente voltou a realizar atividades domésticas e recuperou a capacidade de deambular sem limitações. 

O humor e a disposição apresentaram melhora perceptível tanto pela própria paciente quanto pela família. A sonolência inicial, único efeito adverso relevante, foi rapidamente resolvida com ajuste de horário das doses. Os familiares expressaram grande satisfação com os resultados, referindo alívio significativo com a evolução clínica da paciente.

Mesmo com a necessidade de pausa temporária da quimioterapia devido à reativação de nódulos, a paciente manteve boa qualidade de vida, com controle adequado dos sintomas e estabilidade emocional, demonstrando benefício clínico relevante do tratamento com cannabis medicinal.

Paciente alegre realizando atividades diárias
Paciente alegre realizando atividades diárias

Conclusão

O presente caso evidencia o papel relevante da cannabis medicinal como terapia adjuvante no manejo de sintomas complexos em pacientes com neoplasia avançada. A paciente, portadora de adenocarcinoma de cólon metastático e com dor crônica refratária, apresentou resposta clínica expressiva após a introdução dos canabinoides, com melhora significativa da dor, redução do uso de opioides e controle mais efetivo da ansiedade e dos sintomas pós-quimioterapia. 

A titulação cuidadosa das doses, aliada ao acompanhamento próximo, permitiu alcançar equilíbrio entre eficácia e tolerabilidade, reforçando a aplicabilidade prática dos canabinoides em cuidados paliativos e em suporte oncológico.

Além do impacto clínico objetivo — como a redução acentuada da escala de dor e o retorno às atividades cotidianas — observou-se melhora substancial na qualidade de vida, validada pelo relato da paciente e de seus familiares. O manejo individualizado, integrando abordagem farmacológica, suporte emocional e participação da família, consolidou um cuidado mais abrangente e humanizado.

Este caso ilustra como a cannabis medicinal pode representar uma alternativa terapêutica segura e eficaz para sintomas refratários no contexto oncológico, especialmente quando integrada a um plano terapêutico multidimensional. Embora não interferiu no curso natural da neoplasia, seu impacto funcional e emocional reforça o valor dos canabinoides como ferramenta útil na prática clínica e na promoção de qualidade de vida em pacientes com câncer metastático.

As informações pessoais contidas neste caso clínico foram modificadas para preservar a identidade e a imagem do paciente, mantendo, no entanto, a veracidade e a integridade dos dados clínicos. Este é um relato baseado em um caso real, fundamentado na documentação médica e nas observações clínicas realizadas durante o acompanhamento do paciente. A finalidade é compartilhar o tratamento e as estratégias adotadas em um cenário clínico de relevância, respeitando sempre a confidencialidade e a ética médica.

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