Cannabis medicinal como ferramenta terapêutica adjuvante no manejo de transtornos psiquiátricos

transtornos pisquiatricos

 

Quando se fala em transtornos psiquiátricos e Cannabis na mesma frase, geralmente a associação que se faz é negativa. No entanto, ao aprofundar o conhecimento científico a respeito das propriedades terapêuticas dos diferentes elementos químicos dessa planta, você verá que pode existir uma relação bastante benéfica para pacientes portadores de transtornos psiquiátricos diversos. 

Com a Resolução 327 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – que regulamentou a comercialização de produtos à base de Cannabis no Brasil – cresceu o interesse das pessoas em se tratar com Cannabis medicinal, e os pacientes refratários a outras terapias estão cada vez mais atentos a essa possibilidade terapêutica.

Uma pesquisa realizada pela EXAME/IDEIA apontou que 77% dos brasileiros são favoráveis ao uso da Cannabis medicinal, se receitada por um médico. No entanto, apenas 0,2% dos médicos atuantes no país são prescritores dessa classe de medicamentos.

A pandemia da Covid-19 intensificou o interesse dos médicos na relação entre Cannabis e Psiquiatria, tendo em vista o aumento exponencial de transtornos psiquiátricos que se desenvolveram no contexto pandêmico, como ansiedade e depressão, e a alta refratariedade do arsenal farmacológico habitual no manejo desses transtornos.

Neste conteúdo, abordaremos o potencial da Cannabis medicinal no manejo de doenças psiquiátricas, trazendo evidências científicas a esse respeito e mostrando como incorporar os derivados canabinoides com segurança em sua prática prescritiva.

 

Relação entre Cannabis medicinal e transtornos psiquiátricos

O uso terapêutico da Cannabis é uma prática milenar. No entanto, ainda existem vários estigmas e desentendimentos envolvendo a planta. Isso porque, em um contexto de uso recreativo da Cannabis existe maior associação de transtornos psiquiátricos, em especial, dependência química e transtornos psicóticos decorrentes do abuso da substância, sobretudo em indivíduos geneticamente predispostos e/ou com histórico familiar positivo para doenças psiquiátricas.

Por outro lado, quando os derivados canabinoides são utilizados em um contexto medicinal, com orientação e acompanhamento médico, e com produtos laboratorialmente testados, já existem diversos trabalhos científicos que demonstram resultados positivos no controle de sintomas associados à ansiedade, depressão, Transtorno de Estresse pós-traumático, Síndrome de Tourette e, também, esquizofrenia

Até mesmo a dependência química do uso recreativo da planta, assim como de outras drogas, como álcool e nicotina, pode apresentar bons resultados com Cannabis medicinal – desde que em um contexto assertivo de prescrição e estratégia terapêutica.

É por isso que muitos médicos estão buscando educação qualificada na área, de modo a otimizar os resultados terapêuticos e modular possíveis efeitos adversos dos derivados canabinoides.

 

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As principais evidências científicas da Cannabis no manejo dos transtornos psiquiátricos investigam o potencial do canabidiol (CBD) e do tetrahidrocanabinol (THC). Já se sabe, por exemplo, que o CBD reúne propriedades antipsicóticas, ansiolíticas e antidepressivas.

Em relação ao THC, os atributos terapêuticos estão mais associados à estimulação do apetite, indução do sono, combate à fadiga e alívio de dores crônicas. 

Vale lembrar que sintomas como insônia e fadiga são comuns nos transtornos psiquiátricos e também, podem surgir como efeitos colaterais das medicações psicotrópicas comumente utilizadas nesses contextos.

Ressaltamos também,  o potencial terapêutico da Cannabis para além do controle de sintomas, pois o uso medicinal da planta pode contribuir para uma importante redução prescritiva. 

A Cannabis medicinal tem se tornado uma importante aliada no combate ao uso crônico de benzodiazepínicos. É o que mostra, por exemplo, esse estudo do Centro Nacional de Biotecnologia dos Estados Unidos, publicado em 2019 na revista científica Cannabis and Cannabinoid Research. A pesquisa analisou um grupo de 146 pacientes que faziam uso de benzodiazepínicos antes de iniciarem a terapia com Cannabis.

  • Após o uso de canabinoides por dois meses, 30,1% dos pacientes interromperam o uso de benzodiazepínicos. Após quatro meses de prescrição, 44,5% dos pacientes interromperam o uso desses medicamentos. No período final do experimento, depois de três meses de prescrição, esse número alcançou 45,2% de pacientes que abandonaram os benzodiazepínicos.

 

>> Leia a pesquisa completa em: Reduction of Benzodiazepine Use in Patients Prescribed Medical Cannabis

 

O que temos de evidências científicas?

Reunimos as principais evidências científicas do uso da Cannabis medicinal no manejo dos principais transtornos psiquiátricos. 

 

Ansiedade e Depressão

Diversos estudos científicos atestam o potencial ansiolítico do CBD em animais e humanos, a exemplo desta revisão bibliográfica que relaciona as ações farmacológicas do CBD aos receptores endocanabinoides CB1 e CB2 e, também, aos receptores 5-HT1A. Os estudos que compõem esta revisão sugerem não só o potencial ansiolítico do CBD, mas também, suas propriedades antidepressivas e antipsicóticas.

 

>> Leia a revisão completa em: Cannabidiol: A Potential New Alternative for the Treatment of Anxiety, Depression, and Psychotic Disorders.

 

Outro exemplo é este estudo que comparou os efeitos agudos de diferentes doses de CBD e placebo em 57 voluntários saudáveis ​​realizando um teste simulado de falar em público (SPST) – um método validado de indução de ansiedade.

Durante o experimento, avaliações subjetivas na Escala Visual Analógica de Humor (VAMS) e medidas fisiológicas (pressão arterial sistólica e diastólica e frequência cardíaca) foram obtidas em 6 períodos de tempo diferentes.

Os resultados mostraram que, em comparação com o placebo, o tratamento com 300 mg de CBD reduziu significativamente a ansiedade durante a fala. Interessantemente, não foram observadas diferenças significativas nas pontuações VAMS no grupo que ingeriu 150 mg e 600 mg de CBD comparado ao grupo que recebeu placebo. 

Este resultado demonstra o efeito dose-resposta em U-invertido do Canabidiol e mais uma vez, deixa claro que conhecimento técnico adequado na área é fundamental para que os resultados das pesquisas possam ser adequadamente traduzidos para a prática clínica.

 

>> Veja o experimento completo em: Cannabidiol presents an inverted U-shaped dose-response curve in a simulated public speaking test.

 

Em relação à depressão, cada vez mais pesquisas científicas sugerem que os fitocanabinoides também podem ser úteis no tratamento da doença, através de sua atuação nos receptores serotoninérgicos. Um exemplo é este estudo que avalia os efeitos terapêuticos do CBD em uma variedade de transtornos neuropsiquiátricos.

O referido estudo aponta que a substância é capaz de reduzir comportamentos psicóticos, ansiosos e depressivos, além de atenuar o dano cerebral associado a condições neurodegenerativas e/ou isquêmicas.

As evidências sugerem também, que o CBD estimula a plasticidade sináptica e facilita a neurogênese, embora os mecanismos de ação ainda não sejam totalmente esclarecidos.

 

>> Leia o estudo completo em: Cannabidiol, neuroprotection and neuropsychiatric disorders.

 

Outro exemplo é este estudo observacional realizado com 539 pacientes, que mostrou que o uso medicinal da Cannabis foi associado a uma depressão auto relatada mais baixa nos 368 pacientes que fizeram uso da substância, diferentemente dos 170 pacientes que não utilizaram os derivados canabinoides.

Os resultados mostraram ainda que os produtos à base de Cannabis foram capazes de melhorar também, a qualidade do sono e os níveis de percepção de dores crônicas dos pacientes em quadros depressivos.

 

>> Veja o artigo completo em: Antidepressant and Anxiolytic Effects of Medicinal Cannabis Use in an Observational Trial.

 

Esquizofrenia

A farmacoterapia convencional na abordagem terapêutica da esquizofrenia avançou pouco nos últimos anos. Mas, o Canabidiol vem se consolidando como uma opção terapêutica segura e promissora no manejo de pacientes refratários, como mostra este estudo exploratório duplo-cego.

Nessa análise, pacientes com esquizofrenia foram randomizados em uma proporção de 1:1 para receber CBD ou placebo, em associação com a medicação antipsicótica usual. Os resultados mostraram que, após 6 semanas de tratamento, o grupo tratado com CBD apresentou níveis mais baixos de sintomas psicóticos positivos em comparação com o grupo placebo.

Vale ressaltar que as taxas de efeitos adversos foram semelhantes nos dois grupos, o que indica o perfil de segurança favorável do CBD no contexto de transtornos psicóticos.

 

>> Veja o experimento completo em: Cannabidiol (CBD) as an Adjunctive Therapy in Schizophrenia: A Multicenter Randomized Controlled Trial.

 

Esta outra revisão expõe que os efeitos antipsicóticos do CBD são comparáveis aos da amisulprida, fármaco convencionalmente utilizado no tratamento da esquizofrenia.

Em um dos experimentos contemplados na revisão, 42 pacientes portadores de esquizofrenia foram tratados com CBD ou amisulprida durante um período de 4 semanas. Os resultados apontam que ambas as drogas resultaram em melhora clínica dos sintomas positivos e negativos da doença.

 

>> Leia a revisão completa em: Cannabidiol as a Potential New Type of an Antipsychotic. A Critical Review of the Evidence.

 

No contexto de transtornos psicóticos, as terapêuticas baseadas em THC, sugerem o contrário. Os estudos indicam que a terapêutica à base de THC apresenta um risco maior de induzir e/ou piorar eventos psicóticos, principalmente em pacientes geneticamente predispostos.

 

Quer saber mais sobre as principais quimiovariantes da Cannabis e seus atributos terapêuticos? Acesse este infográfico e veja como explorar o potencial de cada quimiovariante!

 

Dependência química

O arsenal farmacológico habitualmente utilizado no manejo de quadros de dependência química apresenta frequentes limitações em termos de resultados, haja vista as altas taxas de recaída dos pacientes. A Cannabis medicinal pode ajudar a melhorar esse cenário e importantes estudos vêm sendo publicados para mostrar que a planta, quando utilizada de forma segura e assertiva, pode ser uma “porta de saída” para a dependência química.

É o que mostra esta revisão bibliográfica que reúne estudos pré-clínicos e clínicos sobre as propriedades medicinais do CBD na regulação dos efeitos de reforço, motivacionais e relacionados à abstinência de diferentes drogas, como álcool, opioides (morfina, heroína), nicotina, psicoestimulantes (cocaína, anfetamina) e, inclusive, cannabis fumo.

Uma seção especial desta revisão foca nos mecanismos neurobiológicos que podem estar subjacentes à ação anti-aditiva do CBD por meio da regulação dos sistemas dopaminérgico, opioidérgico, serotoninérgico e endocanabinoide, bem como, da neurogênese hipocampal.

O perfil farmacológico multimodal descrito para o CBD e a regulação específica de alvos relacionados ao comportamento aditivo explica, pelo menos em parte, seus efeitos terapêuticos na regulação das propriedades reforçadoras e motivacionais em diferentes quadros de abuso de substâncias químicas.

 

>> Leia a revisão completa em: Role of Cannabidiol in the Therapeutic Intervention for Substance Use Disorders.

 

O perfil de segurança e atuação do CBD é bastante favorável para o uso no tratamento da dependência química e, também, de diferentes transtornos psiquiátricos, como ansiedade e depressão, que não raras vezes, estão associados no mesmo paciente.

No entanto, uma educação especializada na área é fundamental para prescrever derivados canabinoides de forma segura e assertiva, seja no manejo de doenças psiquiátricas, seja em outras patologias.

 

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Referências

Campos AC, Fogaça MV, Sonego AB, Guimarães FS. Cannabidiol, neuroprotection and neuropsychiatric disorders. Pharmacol Res. 2016.

García-Gutiérrez MS, Navarrete F, Gasparyan A, Austrich-Olivares A, Sala F, Manzanares J. Cannabidiol: A Potential New Alternative for the Treatment of Anxiety, Depression, and Psychotic Disorders. Biomolecules. 2020.

Linares IM, Zuardi AW, Pereira LC, Queiroz RH, Mechoulam R, Guimarães FS, Crippa JA. Cannabidiol presents an inverted U-shaped dose-response curve in a simulated public speaking test. Braz J Psychiatry. 2019.

Martin EL, Strickland JC, Schlienz NJ, Munson J, Jackson H, Bonn-Miller MO, Vandrey R. Antidepressant and Anxiolytic Effects of Medicinal Cannabis Use in an Observational Trial. Front Psychiatry. 2021.

Navarrete F, García-Gutiérrez MS, Gasparyan A, Austrich-Olivares A, Manzanares J. Role of Cannabidiol in the Therapeutic Intervention for Substance Use Disorders. Front Pharmacol. 2021.

 

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