O cânhamo (Cannabis sativa) é uma planta de grande relevância econômica e terapêutica, amplamente utilizada para diversas finalidades ao longo da história, tanto no setor industrial quanto no campo da medicina. Embora as duas variedades de Cannabis sativa — o cânhamo industrial e o cânhamo medicinal — compartilhem a mesma origem botânica, elas diferem em seus compostos químicos, métodos de cultivo e aplicações, o que resulta em distinções importantes para os profissionais da área médica e farmacêutica.
No post de hoje vamos abordar as diferenças fundamentais entre o cânhamo e outras variedades de cannabis, focando em suas propriedades botânicas, genéticas, e suas diversas aplicações industriais e terapêuticas.
Cânhamo
O cânhamo (Cannabis sativa) é uma das plantas mais antigas cultivadas pelo ser humano, com uma vasta gama de aplicações, tanto no setor industrial quanto terapêutico. Embora pertença à mesma espécie que a cannabis, o cânhamo se distingue principalmente pelo baixo teor de tetrahidrocanabinol (THC), o principal composto psicomimético da Cannabis. Por essa razão, o cânhamo não possui efeitos psicotrópicos significativos, tornando-se uma planta essencialmente voltada para usos não relacionados ao consumo adulto.¹
Fisicamente, o cânhamo é uma planta de grande porte, com a capacidade de crescer de 2 a 4 metros de altura. Ele se caracteriza por seu caule robusto e fibras longas, que são amplamente utilizadas em diversas indústrias. A planta é adaptável e pode ser cultivada em diferentes climas e tipos de solo, o que a torna uma opção viável para a agricultura sustentável. No entanto, seu cultivo requer cuidados especiais no controle do teor de THC, uma vez que, para ser classificado como cânhamo, o nível dessa substância psicoativa deve ser mantido baixo.¹
A Cannabis pode ser cultivada principalmente para a obtenção de altas concentrações de THC, o composto psicoativo responsável pelos efeitos psicotrópicos associados ao uso adulto da planta. Este cultivo é amplamente realizado para satisfazer as necessidades do mercado de produtos voltados para o uso adulto, além de ser utilizado para tratamentos terapêuticos em casos específicos, como os de pacientes com dores crônicas, náuseas associadas à quimioterapia e condições neurológicas diversas.
Algo similar ocorre com o canabidiol (CBD), outro canabinoide da cannabis, que, embora não possua efeitos psicotrópicos, possui amplos benefícios terapêuticos, como propriedades analgésicas, anti-inflamatórias, ansiolíticas e neuroprotetoras. O cultivo da Cannabis para extração de CBD segue um padrão semelhante ao do THC, mas com o objetivo de maximizar os níveis de CBD, ao mesmo tempo que minimiza os de THC.²
Atualmente, variedades de cannabis são cuidadosamente selecionadas para oferecer uma alta concentração de canabinoides de acordo com sua finalidade específica. Algumas plantas são cultivadas para ter altos níveis de CBD e baixos níveis de THC, atendendo às necessidades de pacientes que buscam os benefícios terapêuticos do CBD sem os efeitos psicomiméticos do THC. Outras, por sua vez, são cultivadas para possuir concentrações mais altas de THC. Assim como o THC, outros canabinoides, também apresentam efeitos terapêuticos comprovados.²
O CBD, por exemplo, tem sido utilizado com sucesso no tratamento de diversas condições médicas, incluindo epilepsia, distúrbios do sono, ansiedade, dor crônica e até mesmo no alívio dos sintomas de doenças neurodegenerativas, como a Doença de Alzheimer.
Para saber mais sobre os benefícios terapêuticos do Canabidiol acesse: Impacto do Canabidiol na qualidade de vida – WeCann Academy
Regulamentação e Produção de Cânhamo
Em relação ao cultivo de cânhamo, a regulamentação varia de país para país, mas muitos países aceitam o cultivo de cânhamo com níveis de THC controlados, tipicamente com limites de até 0,2% a 0,3%. Isso tem permitido o avanço da indústria de derivados de Cannabis para usos industriais e terapêuticos, oferecendo uma alternativa legal e segura para o uso de canabinoides. Em algumas regiões, como a União Europeia e os Estados Unidos, a legislação foi adaptada para permitir o cultivo de cânhamo com níveis de THC reduzidos, oferecendo oportunidades para a criação de produtos derivados de Cannabis de forma controlada.
Usos e Aplicações
O cânhamo é amplamente utilizado em diversos setores industriais e terapêuticos devido às suas propriedades nutricionais, mecânicas e farmacológicas. Sua aplicação abrange desde a produção de fibras têxteis e bioplásticos até a formulação de compostos medicinais, tornando-se uma matéria-prima sustentável e de alto valor agregado.
Alimentação e Nutrição
As sementes de cânhamo são consideradas um superalimento devido à sua composição equilibrada. Elas contêm todos os nove aminoácidos essenciais, tornando-se uma excelente fonte proteica para vegetarianos e veganos. A proteína do cânhamo apresenta alta digestibilidade e é rica em edestina e albumina, favorecendo sua absorção pelo organismo. Além disso, as sementes possuem uma proporção ideal de ômega-6 para ômega-3 (3:1), essencial para a saúde cardiovascular e para a regulação da inflamação. Também são uma excelente fonte de fibras, que auxiliam na digestão e no controle do colesterol, além de fornecerem minerais como magnésio, ferro, zinco e fósforo, e vitaminas do complexo B, fundamentais para o metabolismo e a função imunológica.
O consumo regular de cânhamo pode trazer diversos benefícios à saúde. Seus ácidos graxos essenciais ajudam a reduzir os níveis de colesterol LDL e triglicerídeos, promovendo a saúde cardiovascular. Além disso, seus antioxidantes e ácidos graxos poli-insaturados contribuem para a modulação inflamatória e o fortalecimento do sistema imunológico.
Estudos em animais indicam que as sementes de cânhamo ou o óleo de suas sementes podem reduzir a pressão arterial, diminuir o risco de formação de coágulos sanguíneos e auxiliar na recuperação do coração após um ataque cardíaco. A presença de proteínas e fibras auxilia no controle do apetite e na manutenção dos níveis de energia ao longo do dia. O cânhamo também se mostra um aliado para a saúde cerebral, pois seus ácidos graxos essenciais desempenham um papel fundamental na função cognitiva e podem ajudar na prevenção de doenças neurodegenerativas.³
Indústria Têxtil e Papel
O cânhamo é uma das fibras naturais mais resistentes e duráveis, sendo utilizado há séculos na confecção de tecidos, cordas e lonas. Comparado ao algodão, o cultivo do cânhamo requer menos água e pesticidas, tornando-o uma alternativa ecologicamente sustentável. Além disso, sua fibra pode ser processada para a fabricação de papel de alta durabilidade, sendo uma alternativa mais sustentável à celulose extraída de árvores.²
Construção Civil e Bioplásticos
A fibra do cânhamo pode ser utilizada na fabricação de materiais de construção, como hempcrete (tijolos de cânhamo), um biocomposto leve, resistente e com propriedades isolantes. Esse material tem ganhado popularidade na construção sustentável devido à sua baixa pegada de carbono. Além disso, bioplásticos derivados do cânhamo estão sendo explorados como alternativa aos polímeros sintéticos, reduzindo a dependência do petróleo e o impacto ambiental do plástico convencional.
Produtos à base de Óleo
O óleo da semente do cânhamo tem sido estudado como um ingrediente valioso na indústria cosmética devido à sua ação hidratante. Rico em ácidos graxos essenciais, como o ômega-3 e ômega-6, ele auxilia na manutenção da barreira cutânea, promovendo a hidratação profunda e ajudando a equilibrar a oleosidade da pele. Por essa razão, é um ingrediente frequente em cremes, loções, shampoos e outros produtos dermatológicos, sendo especialmente benéfico para peles sensíveis e propensas a irritações.
Além disso, um estudo randomizado e único-cego encontrou evidências de que o consumo de óleo de cânhamo na dieta reduziu significativamente os sintomas e a aparência clínica da dermatite atópica após 20 semanas, reforçando seus benefícios dermatológicos. O ácido gama-linolênico (GLA), presente nas sementes de cânhamo, também desempenha um papel fundamental na modulação inflamatória e hormonal.4
O GLA é um precursor da prostaglandina E1, um composto que ajuda a reduzir os efeitos da prolactina, um hormônio associado a sintomas da tensão pré-menstrual (TPM). Um estudo realizado em 2011 com mulheres que sofriam de TPM demonstrou que a ingestão de 1 g de ácidos graxos essenciais por dia, incluindo 210 mg de GLA, resultou em uma redução significativa dos sintomas.5
Outros estudos também indicam que o óleo de prímula, rico em GLA, é altamente eficaz para mulheres que não responderam a outras terapias, aliviando sintomas como dor e sensibilidade mamária, depressão, irritabilidade e retenção de líquidos. Como as sementes de cânhamo são naturalmente ricas em GLA, diversos estudos sugerem que elas podem auxiliar na atenuação dos sintomas da menopausa.6
Além de suas aplicações na cosmética e na saúde da mulher, o óleo de cânhamo e seus derivados também são utilizados na formulação de tintas, vernizes e lubrificantes ecológicos, reforçando seu papel como uma alternativa sustentável na indústria química.
Conclusão
O cânhamo é uma matéria-prima versátil e sustentável, com aplicações que vão desde a indústria têxtil e construção civil até a nutrição e cosmética. Seu cultivo de baixo impacto ambiental, aliado às suas propriedades terapêuticas e nutricionais, o torna uma alternativa promissora tanto para a saúde quanto para a economia sustentável. Com regulamentações cada vez mais favoráveis ao redor do mundo, o cânhamo se firma como um recurso inovador para diversas indústrias.
Diante de seus inúmeros benefícios, o cânhamo representa uma solução natural e eficiente para diversos desafios contemporâneos, desde a busca por materiais ecológicos até a formulação de produtos terapêuticos. A crescente aceitação e pesquisa sobre seus compostos bioativos indicam que seu potencial ainda está longe de ser totalmente explorado, abrindo novas perspectivas para a ciência e a medicina.
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Referências
- Cabral Assumpção H. O POTENCIAL SUSTENTÁVEL DO CÂNHAMO NO CUMPRIMENTO DA AGENDA 2030 E SUA LEGISLAÇÃO NO BRASIL. RBCan [Internet]. 27º de maio de 2024 [citado 6º de março de 2025];3(1):25. Disponível em: https://revistacannabis.med.br/sbec/article/view/21
- MONTAGNER, Patrícia; DE SALAS-QUIROGA, Adán. Tratado de Medicina Endocanabinoide.1. ed. WeCann Endocannabinoid Global Academy, 2023.
- Girgih AT, Alashi A, He R, Malomo S, Aluko RE. Preventive and treatment effects of a hemp seed (Cannabis sativa L.) meal protein hydrolysate against high blood pressure in spontaneously hypertensive rats. Eur J Nutr. 2014 Aug;53(5):1237-46. doi: 10.1007/s00394-013-0625-4. Epub 2013 Nov 29. PMID: 24292743.
- CALLAWAY, James et al. Efficacy of dietary hempseed oil in patients with atopic dermatitis. Journal of Dermatological Treatment, v. 16, p. 87-94, 2005.
- Ma, Jiao & Guo, Chen-yang & Li, Han-bing & Wu, Su Hui & Li, Gen-lin. (2023). Prophylactic Effects of Hemp Seed Oil on Perimenopausal Depression: A Role of HPA Axis. Journal of Oleo Science. 72. 10.5650/jos.ess23062.
- Mahboubi M. Evening Primrose (Oenothera biennis) Oil in Management of Female Ailments. J Menopausal Med. 2019 Aug;25(2):74-82. doi: 10.6118/jmm.18190. Epub 2019 Aug 5. PMID: 31497576; PMCID: PMC6718646.