Caso Clínico: Uso de Cannabis Medicinal na Esclerose Lateral Amiotrófica 

Publicado em 06/04/26 | Atualizado em 06/04/26 | Leitura: 12 minutos

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Este caso clínico descreve uma paciente com Esclerose Lateral Amiotrófica de longa evolução, com sobrevida excepcional superior a três décadas, associada ao uso contínuo de cannabis desde 1989. Apesar de importante comprometimento motor, manteve preservação cognitiva e qualidade de vida relativamente estável, com controle sintomático relevante da espasticidade. A condução clínica focou na otimização do uso da cannabis — especialmente do THC — e na redução de danos por meio da vaporização. Do ponto de vista fisiopatológico, o caso reforça o papel do Sistema Endocanabinoide na regulação da excitotoxicidade glutamatérgica, neuroinflamação e estresse oxidativo, levantando hipóteses plausíveis sobre efeitos neuroprotetores.

Apresentação do Caso Clínico

Paciente do sexo feminino, 83 anos de idade, diagnosticada com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em 1986, procurou atendimento com um médico especialista em medicina endocanabinoide em 2018 para avaliação clínica e orientação terapêutica relacionada ao uso de cannabis medicinal.

A ELA é uma doença neurodegenerativa progressiva caracterizada pela degeneração de neurônios motores superiores e inferiores, resultando em fraqueza muscular progressiva, espasticidade e falência neuromuscular. A sobrevida média após o diagnóstico situa-se geralmente entre 3 e 5 anos, tornando este caso particularmente incomum.

Quando avaliada em 2018, a paciente convivia com a doença há mais de três décadas, superando amplamente as estatísticas epidemiológicas de sobrevida. De maneira bem-humorada, relatou ao médico que já havia passado por quatro neurologistas que a acompanharam ao longo de sua trajetória clínica.

Durante a avaliação inicial, observou-se comprometimento motor significativo. A paciente apresentava fraqueza muscular generalizada, evoluindo para um quadro de quadriparesia espástica, além de disartria importante. Apesar da limitação física avançada, chamava atenção a preservação completa das funções cognitivas, permanecendo lúcida, orientada e com raciocínio preservado.

Um aspecto singular do histórico clínico era a recusa da paciente em aderir a tratamentos farmacológicos convencionais para a ELA. Poucos anos após o diagnóstico, ela iniciou o uso empírico de cannabis inalável, adotando essa estratégia como principal ferramenta para manejo dos sintomas.

Segundo relato da própria paciente, o uso regular da planta teve início em 1989, aproximadamente três anos após o diagnóstico, sendo mantido de forma contínua ao longo de décadas.

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Exame Físico

Ao exame físico realizado no momento da avaliação clínica, a paciente apresentava sinais típicos de comprometimento de neurônio motor superior e inferior.

Observou-se fraqueza muscular global significativa, predominante nos membros inferiores, associada à hipertonia espástica difusa. A mobilidade encontrava-se severamente comprometida, sendo compatível com quadriparesia espástica avançada.

A avaliação neurológica evidenciou reflexos osteotendinosos exaltados, compatíveis com lesão de neurônio motor superior. Havia também disartria, refletindo o envolvimento da musculatura bulbar.

Apesar da limitação motora avançada, a paciente mantinha estado cognitivo totalmente preservado, sem sinais de comprometimento executivo ou de memória.

Lista de Problemas

  1. Esclerose Lateral Amiotrófica de longa evolução
  2. Quadriparesia espástica
  3. Fraqueza muscular generalizada
  4. Disartria
  5. Espasticidade severa
  6. Uso empírico crônico de cannabis inalável

Tratamento com Cannabis Medicinal

Quando a paciente passou a ser acompanhada por um especialista em medicina endocanabinoide, o objetivo terapêutico não foi iniciar o uso da cannabis — prática que ela já mantinha há décadas —, mas reorganizar e otimizar essa estratégia empírica à luz da farmacologia dos fitocanabinoides, das boas práticas clínicas e dos princípios de redução de danos.

Historicamente, a paciente fazia uso de flores de cannabis ricas em Delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), consumidas por meio da combustão da planta. Esse padrão de uso havia sido adotado de forma autodirigida desde o final da década de 1980 e era mantido principalmente para controle da espasticidade muscular, desconforto motor e indução do sono.

Considerando o quadro clínico de espasticidade severa associado à Esclerose Lateral Amiotrófica, o principal fitocanabinoide de interesse farmacológico no caso era o Delta-9-tetrahidrocanabinol (THC). Esse composto atua como agonista parcial dos receptores canabinoides do sistema nervoso central, exercendo efeito antiespástico por meio da modulação da excitabilidade neuronal e da redução da liberação de neurotransmissores excitatórios.

Dessa forma, a estratégia terapêutica adotada consistiu em manter um perfil químico predominante em THC (Quimiotipo I) como base do tratamento, preservando o efeito antiespástico desejado. Entretanto, a condução clínica concentrou-se na otimização da via de administração e na padronização do uso, com o objetivo de aumentar a segurança do tratamento e reduzir riscos associados ao consumo crônico da planta.

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Racional Terapêutico

A fisiopatologia da Esclerose Lateral Amiotrófica envolve múltiplos mecanismos inter-relacionados de degeneração neuronal. Entre os principais processos implicados na morte progressiva dos neurônios motores destacam-se:

  • excitotoxicidade mediada pelo glutamato
  • estresse oxidativo
  • neuroinflamação crônica
  • disfunção mitocondrial

Entre esses mecanismos, a excitotoxicidade glutamatérgica ocupa papel central na progressão da doença. A liberação excessiva de glutamato no ambiente sináptico promove hiperestimulação dos neurônios motores, levando à abertura prolongada de canais de cálcio dependentes de receptor NMDA. Esse influxo intracelular excessivo de cálcio desencadeia uma cascata de eventos neurotóxicos que culmina em apoptose neuronal.

Nesse contexto, o Sistema Endocanabinoide exerce importante função moduladora da neurotransmissão. A ativação dos receptores CB1 localizados nas terminações pré-sinápticas atua como um mecanismo fisiológico de retroalimentação negativa, reduzindo a liberação de neurotransmissores excitatórios, incluindo o glutamato.

Essa modulação da atividade sináptica ajuda a explicar por que os fitocanabinoides podem exercer efeito potencialmente neuroprotetor, ao mesmo tempo em que contribuem para o manejo de sintomas clínicos relevantes da doença, como dor, espasticidade e distúrbios do sono.

Justificativa Farmacológica

O Delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) atua como agonista parcial dos receptores canabinoides CB1 e CB2.

A ativação dos receptores CB1, altamente expressos no sistema nervoso central, produz uma série de efeitos farmacológicos relevantes para o manejo das manifestações neurológicas da doença, incluindo:

  • redução da liberação de glutamato nas sinapses excitatórias
  • modulação da excitabilidade neuronal
  • relaxamento muscular mediado por circuitos motores espinais
  • efeito analgésico central

Além da ação mediada por receptores canabinoides, compostos presentes na planta também apresentam propriedades antioxidantes, capazes de neutralizar espécies reativas de oxigênio envolvidas no dano celular progressivo.

Esse conjunto de efeitos farmacológicos torna os fitocanabinoides particularmente interessantes no contexto de doenças neurodegenerativas caracterizadas por neuroinflamação, estresse oxidativo e hiperexcitabilidade neuronal, como ocorre na ELA.

Estratégia de Titulação

Considerando que a paciente possuía histórico prolongado de uso da planta, não foi necessário iniciar um protocolo clássico de titulação progressiva, como ocorre em pacientes sem contato com a cannabis.

A abordagem clínica concentrou-se na padronização do consumo e na orientação para práticas mais seguras de administração, preservando o benefício sintomático já observado pela paciente ao longo dos anos.

Em cenários clínicos típicos envolvendo pacientes com ELA que iniciam terapia canabinoide, recomenda-se uma abordagem progressiva baseada no princípio “start low, go slow”. Nesse contexto, o manejo geralmente envolve:

  • Canabidiol (CBD): doses iniciais entre 5 mg e 20 mg ao dia, com titulação gradual conforme resposta clínica.
  • THC: microdoses iniciais entre 1 mg e 2,5 mg administradas preferencialmente no período noturno, com aumentos progressivos de acordo com a tolerabilidade.

No caso da paciente descrita, entretanto, a tolerância farmacológica ao THC já estava plenamente estabelecida, devido ao uso crônico da planta ao longo de décadas. Assim, o foco terapêutico permaneceu direcionado à manutenção da eficácia sintomática e à melhoria do perfil de segurança do tratamento.

Abordagem Associada

A principal intervenção médica realizada durante o acompanhamento consistiu na substituição da combustão da cannabis pela vaporização das flores.

A vaporização consiste no aquecimento da planta em temperaturas controladas, suficientes para volatilizar os fitocanabinoides ativos sem atingir o ponto de combustão do material vegetal. Esse processo permite a inalação dos compostos terapêuticos na forma de vapor, reduzindo significativamente a exposição a subprodutos tóxicos gerados pela queima da planta, como:

  • alcatrão
  • monóxido de carbono
  • hidrocarbonetos aromáticos policíclicos

Essa mudança representou uma estratégia de redução de danos particularmente relevante no contexto da ELA. A progressão da doença frequentemente envolve comprometimento gradual da musculatura respiratória, aumentando o risco de insuficiência ventilatória.

Diante dessa vulnerabilidade fisiológica, minimizar a exposição do trato respiratório a agentes irritantes torna-se uma medida fundamental de suporte clínico. A transição para a vaporização teve, portanto, como objetivo preservar a função pulmonar e reduzir o risco de complicações respiratórias associadas à inalação crônica de fumaça, como bronquite e inflamação das vias aéreas.

Acompanhamento e Evolução

Durante o acompanhamento clínico, observou-se que a paciente mantinha estabilidade cognitiva e continuava utilizando a cannabis de forma regular para controle da espasticidade e do desconforto muscular.

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Embora o comprometimento motor fosse significativo, a paciente havia apresentado sobrevida extremamente superior ao esperado para a doença, mantendo qualidade de vida relativamente preservada por décadas.

O uso prolongado da cannabis pareceu contribuir para o controle sintomático da espasticidade, além de possivelmente atuar na modulação de processos neuroinflamatórios associados à progressão da doença.

Naturalmente, trata-se de um relato clínico isolado, não sendo possível estabelecer relação causal direta entre o uso da cannabis e a sobrevida atípica observada. Contudo, o caso levanta hipóteses fisiopatológicas plausíveis sobre o papel do Sistema Endocanabinoide na modulação de doenças neurodegenerativas.

Casos como este não oferecem respostas definitivas — mas abrem caminhos clínicos que não podem mais ser ignorados. A possibilidade de modular processos como neuroinflamação, excitotoxicidade e degeneração neuronal por meio do Sistema Endocanabinoide representa uma das fronteiras mais promissoras da medicina contemporânea. Se você deseja compreender, com profundidade científica e aplicação clínica, quando, como e para quem indicar canabinoides em doenças neurodegenerativas, vale aprofundar-se neste conteúdo: Canabinoides e Neuroproteção: Nova perspectiva na medicina

Conclusão

Este caso clínico ilustra uma trajetória incomum de Esclerose Lateral Amiotrófica com sobrevida prolongada, associada ao uso contínuo de cannabis ao longo de décadas.

Sob a perspectiva da medicina endocanabinoide, os fitocanabinoides apresentam propriedades farmacológicas potencialmente relevantes para o manejo da ELA, incluindo:

  • modulação da excitotoxicidade glutamatérgica
  • ação antioxidante
  • efeito antiespástico
  • regulação da neuroinflamação

Além do potencial impacto neuroprotetor, a cannabis medicinal oferece benefícios claros no controle sintomático da espasticidade, dor e distúrbios do sono, sintomas frequentemente incapacitantes para pacientes com doenças neurodegenerativas.

A condução clínica deste caso também destaca o papel do médico especialista em medicina endocanabinoide: integrar o conhecimento científico à realidade do paciente, transformando práticas empíricas em estratégias terapêuticas mais seguras, estruturadas e alinhadas às boas práticas clínicas.

As informações pessoais contidas neste caso clínico foram modificadas para preservar a identidade e a imagem do paciente, mantendo, no entanto, a veracidade e a integridade dos dados clínicos. Este é um relato baseado em um caso real, fundamentado na documentação médica e nas observações clínicas realizadas durante o acompanhamento do paciente. A finalidade é compartilhar o tratamento e as estratégias adotadas em um cenário clínico de relevância, respeitando sempre a confidencialidade e a ética médica.

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O caso apresentado ilustra um dos maiores desafios da neurologia contemporânea: o manejo de doenças neurodegenerativas complexas, como a Esclerose Lateral Amiotrófica, nas quais as opções terapêuticas convencionais frequentemente oferecem benefícios limitados. A compreensão do papel do Sistema Endocanabinoide na modulação da excitotoxicidade, da neuroinflamação e da espasticidade abre novas perspectivas para o cuidado desses pacientes.

No entanto, integrar a cannabis medicinal à prática clínica exige muito mais do que conhecer os fitocanabinoides. É fundamental compreender a fisiologia do sistema endocanabinoide, a farmacologia do THC e do CBD, e as estratégias seguras de prescrição em doenças neurológicas complexas.

A Certificação Internacional em Medicina Endocanabinoide da WeCann Academy foi desenvolvida exatamente para capacitar médicos nesse novo cenário. Com base científica sólida e foco em aplicações clínicas reais, o programa prepara o profissional para incorporar a terapêutica canabinoide de forma segura e estratégica no manejo de condições desafiadoras, incluindo doenças neurodegenerativas, dor crônica e distúrbios neurológicos.

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