Cannabis para alívio de enxaqueca: eficácia e segurança

Publicado em 02/07/24 | Atualizado em 02/07/24 Leitura: 8 minutos

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A enxaqueca é uma condição neurológica crônica caracterizada por cefaleias recorrentes de intensidade moderada a grave, frequentemente acompanhadas por náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enxaqueca é a sexta doença mais incapacitante do mundo, com uma prevalência global significativa. Nos últimos anos, a Cannabis medicinal emergiu como uma alternativa terapêutica promissora para o manejo da enxaqueca, especialmente em pacientes que não respondem adequadamente aos tratamentos convencionais. Neste post, vamos explorar o uso da Cannabis medicinal no tratamento da enxaqueca, revisando as evidências científicas atuais.

Enxaqueca: Fases e Mecanismos Fisiopatológicos:

A enxaqueca é uma condição neurológica complexa que se desenvolve em várias fases distintas, cada uma com seus próprios sintomas característicos e implicações fisiopatológicas. Vamos explorar as quatro fases da enxaqueca – prodrômica, aura, ataque e pós-drômica – e discutir os mecanismos subjacentes que contribuem para o desenvolvimento desta condição debilitante.

  • Estágio Prodrômico: Este estágio inicial pode durar de horas a dias antes da dor de cabeça começar. Os sintomas incluem fotofobia, fadiga, mudanças de humor (como irritabilidade ou depressão), rigidez muscular (especialmente no pescoço), desejo por certos alimentos, e sede intensa. Esses sinais antecipatórios podem variar entre os pacientes, mas são consistentes em cada indivíduo.
  • Estágio de Aura: O estágio de aura é experimentado por cerca de 25% dos pacientes com enxaqueca. Os sintomas típicos incluem distúrbios visuais (como flashes de luz, pontos cegos e linhas em ziguezague), sensações de formigamento ou dormência, geralmente começando em uma mão e se espalhando para o braço e face, dificuldades na fala e alterações sensoriais como mudanças nos odores e paladares. Esse estágio dura de 20 a 60 minutos e precede ou acompanha a dor de cabeça.
  • Fase de Ataque: Caracterizada por uma dor de cabeça pulsátil, que é unilateral em aproximadamente 60% dos casos. A dor pode variar de moderada a severa e geralmente é agravada por atividades físicas de rotina. É comumente acompanhada de náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia. Este estágio pode durar de 4 a 72 horas, se não tratado de forma eficaz.
  • Estágio Pós-drômico: Após a fase de ataque, os pacientes frequentemente experimentam uma sensação de exaustão física e mental, com confusão, letargia e dor muscular. Este período de recuperação, que pode durar várias horas a dias, é frequentemente descrito como uma “ressaca da enxaqueca”.

 

Acredita-se que a enxaqueca seja causada pela ativação anormal do sistema trigeminovascular, que envolve os nervos trigêmeos e os vasos sanguíneos das meninges, resultando em processos de vasodilatação e neuroinflamação. A liberação de substâncias neuroquímicas, como serotonina e peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), desempenha um papel crucial na mediação da dor e dos sintomas associados à enxaqueca.¹

Atualmente, não existe cura para a enxaqueca, mas diversos medicamentos estão disponíveis para alívio sintomático. Estes incluem analgésicos, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), antieméticos e medicamentos específicos para enxaqueca, como triptanos e antagonistas de receptores de CGRP. Apesar disso, a terapia convencional muitas vezes falha, e os pacientes necessitam de tratamentos combinados e preventivos, como o uso de betabloqueadores, anticonvulsivantes e antagonistas de serotonina, para um gerenciamento mais eficaz e redução da frequência e severidade das crises. Mesmo assim, a terapia pode não ser eficaz e apresentar diversos efeitos colaterais. Assim, a cannabis surge como uma alternativa promissora. Como já discutimos em outros posts, os canabinoides podem modular a neurotransmissão e reduzir a neuroinflamação, sendo eficazes para tratar dores crônicas e com mínimos e toleráveis efeitos colaterais.

Como a Cannabis age na enxaqueca

O uso medicinal da Cannabis para o tratamento de cefaleias tem uma longa história, com evidências etnobotânicas e relatos anedóticos sugerindo seu potencial analgésico. Recentemente, a pesquisa científica tem focado no Sistema Endocanabinoide (SEC), um sistema crucial de sinalização celular envolvido na modulação da dor, inflamação e homeostase neurológica.

O SEC é composto por receptores canabinoides, principalmente CB1 e CB2, e ligantes endógenos, como a anandamida (AEA) e o 2-araquidonilglicerol (2-AG). Esses componentes regulam várias funções fisiológicas essenciais. Os receptores CB1 são predominantemente encontrados no sistema nervoso central e são responsáveis pela modulação da dor e inflamação. Já os receptores CB2 estão mais presentes no sistema imunológico e em células periféricas.²

Evidências científicas indicam que pacientes com enxaqueca crônica apresentam níveis reduzidos de anandamida (AEA), um dos principais endocanabinoides do corpo humano, facilitando assim a percepção da dor.³ A suplementação com CBD pode ajudar a restaurar o equilíbrio do SEC, aumentando os níveis de anandamida e reduzindo a frequência e intensidade das crises álgicas. O CBD tem mostrado um potencial promissor no tratamento da enxaqueca ao modular o SEC, essencial para a homeostase do organismo.

Além disso, o SEC interage diretamente com o Sistema Trigeminovascular (ST) que é fundamental na patogênese das crises de enxaqueca. Essa interação indica que o canabidiol  pode oferecer uma alternativa terapêutica segura e eficaz para o manejo dos sintomas dessa condição debilitante. Os fitocanabinoides como o THC e o CBD presentes na Cannabis também interagem com o SEC. O THC se liga diretamente aos receptores CB1, produzindo efeitos analgésicos e anti-inflamatórios, enquanto o CBD modula indiretamente o SEC, aumentando os níveis de endocanabinoides endógenos, como a anandamida (AEA), e interagindo com outros receptores e canais iônicos, incluindo os receptores de serotonina (5-HT1A) e os canais TRPV1, ambos envolvidos na regulação da dor. Essas ações sinérgicas e multimodais dos canabinoides suportam seu potencial terapêutico no tratamento da enxaqueca.

Evidências clínicas do uso da cannabis no tratamento da Enxaqueca

No final do século XIX e início do século XX a cannabis era frequentemente prescrita por médicos para o tratamento sintomático e preventivo de cefaleias. Mas foi em 1985, que Volfe e colaboradores demonstraram que o THC, inibiu significativamente a liberação plaquetária de serotonina durante crises de enxaqueca, um efeito não observado fora das crises.

Estudos recentes têm aprofundado a investigação sobre a eficácia da cannabis no tratamento da enxaqueca. Um estudo de 2012 comparou a nabilona (0,5 mg/dia) com ibuprofeno em pacientes com cefaleia por uso excessivo de medicamentos. A nabilona mostrou-se superior na redução da intensidade da dor e na diminuição do consumo diário de analgésicos, além de reduzir a dependência de medicamentos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.4

Outro estudo significativo realizado em 2017 comparou extratos de cannabis com alto teor de THC (19% THC) e alto teor de CBD (<0,4% THC; 9% CBD) com amitriptilina e verapamil ao longo de três meses. Os resultados indicaram que a formulação à base de cannabis reduziu a dor em 55% dos casos e ofereceu um benefício terapêutico de 40,4% no tratamento profilático, comparável ao da amitriptilina.5 Em pacientes com cefaleia em salvas, a cannabis moderadamente reduziu o número e a gravidade das crises, especialmente em indivíduos com histórico de enxaqueca na infância.

Conclusão

A enxaqueca é uma condição de alta prevalência e com um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes, muitas vezes não respondendo adequadamente aos tratamentos convencionais disponíveis. A cannabis medicinal emerge como uma alternativa viável e promissora para o tratamento da enxaqueca, com potencial para melhorar substancialmente a qualidade de vida e reduzir a dependência de medicamentos tradicionais. À medida que a pesquisa e os ensaios clínicos continuam avançando, espera-se que novas evidências fortaleçam ainda mais o seu papel terapêutico no manejo dessa condição clínica desafiadora. Nós da WeCann estamos comprometidos em fornecer suporte e orientação tecnicamente qualificados à comunidade médica, ancorados na  vasta experiência prática do nosso corpo técnico e na sólida abordagem baseada em evidências científicas, caminho fundamental para os profissionais médicos que desejam explorar os benefícios dos medicamentos à base de cannabis na prática médica

Referências

  1. MONTAGNER,Patrícia; DE SALAS-QUIROGA, Adán. Tratado de Medicina Endocanabinoide.1. ed. Wecann Endocannabinoid Global Academy, 2023.
  2. Pertwee RG. The diverse CB1 and CB2 receptor pharmacology of three plant cannabinoids: delta9-tetrahydrocannabinol, cannabidiol and delta9-tetrahydrocannabivarin. Br J Pharmacol. 2008 Jan;153(2):199-215. doi: 10.1038/sj.bjp.0707442. Epub 2007 Sep 10. PMID: 17828291; PMCID: PMC2219532.
  3. GRECO, R.; DEMARTINI, C.; ZANABONI, A. M.; PIOMELLI, D.; TASSORELLI, C. Endocannabinoid System and Migraine Pain: An Update. *Frontiers in Neuroscience*, [S.l.], v. 12, p. 172, 2018. DOI: 10.3389/fnins.2018.00172.
  4. Pini, L. A. et al. Nabilone for the treatment ofmedication overuse headache: results of a preliminarydouble-blind, active-controlled, randomized trial. J.Headache Pain 13, 677–684 (2012).
  5. Nicolodi, M., Sandoval, V. & Torrini, A. Therapeuticuse of cannabinoids-dose finding, effects and pilotdata of effects in chronic migraine and clusterheadache. Eur. J. Neurol. 24, 123–444 (2017).
Esse texto foi elaborado pelo time de experts da WeCann, baseado nas evidências científicas partilhadas nas referências e, amparado na ampla experiência prescritiva dos profissionais.

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