Caso Clínico: Manejo do TEA de difícil controle em adulto

Publicado em 10/02/26 | Atualizado em 10/02/26 | Leitura: 11 minutos

Caso clínico

Análise detalhada de caso clínico envolvendo paciente adulto com TEA nível 3, não verbal e histórico de agitação psicomotora grave e autoagressividade. O relato descreve as limitações da polifarmácia convencional, os efeitos paradoxais do THC e a estratégia farmacológica refinada de substituição por Cannabigerol (CBG) visando modulação adrenérgica e controle comportamental sem sedação.

Apresentação do Caso Clínico

Paciente do sexo masculino, 27 anos, portador de Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível de suporte 3, não verbal, com histórico de dependência integral para atividades de vida diária. Foi encaminhado para avaliação médica devido a quadro progressivo de agitação psicomotora grave, caracterizada por vocalizações repetitivas intensas (ecolalia em forma de gritos contínuos), baixa tolerância a frustrações, episódios frequentes de desorganização comportamental e insônia persistente, com impacto significativo no ambiente domiciliar.

Ao longo da evolução, o quadro tornou-se mais grave, com surgimento de comportamentos autoagressivos, incluindo bater-se repetidamente, além de quebra de objetos, gerando risco físico para o próprio paciente e para terceiros. A intensidade e a imprevisibilidade das crises tornaram o manejo domiciliar progressivamente mais difícil.

Histórico Familiar e Contexto Psicossocial

O paciente é filho de pais divorciados, que inicialmente compartilhavam os cuidados. No entanto, durante o curso do tratamento, houve abandono progressivo dos cuidados maternos, culminando posteriormente no falecimento da mãe, evento que agravou ainda mais a fragilidade da rede de apoio familiar.

O cuidado passou a ser exercido exclusivamente pelo pai, que se encontrava em estado de exaustão física e emocional, com privação crônica de sono, sobrecarga financeira e risco iminente de perda do emprego em decorrência da necessidade constante de supervisão do filho. Tentativas de contratação de cuidadores profissionais foram realizadas, porém não se sustentaram, seja por desistência das cuidadoras, seja pela dificuldade de manejo do paciente.

No início do acompanhamento, o paciente não realizava terapias não farmacológicas estruturadas, como terapia ocupacional ou intervenções especializadas para TEA, em grande parte devido à limitação do suporte familiar disponível.

image 6

Exame Físico

Paciente em bom estado geral, porém pouco cooperativo, com importante agitação psicomotora, o que limitou a realização de exame físico completo e sistematizado. Mantém-se não verbal, com vocalizações repetitivas intensas durante a avaliação.

Apresenta-se vigil, com comportamento desorganizado e dificuldade de permanência em repouso. Não foi possível realizar aferição adequada de sinais vitais ou exame neurológico detalhado devido à baixa tolerância ao manuseio físico.

À inspeção geral, não foram observados sinais evidentes de sofrimento respiratório, cianose ou alterações cutâneas aparentes. Abdome sem avaliação palpável adequada no momento da consulta, em razão da resistência ao toque. No entanto, durante o acompanhamento foi levantada a hipótese clínica de desconforto gastrointestinal ou doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) como possível fator agravante da agitação comportamental, especialmente considerando a piora dos sintomas em determinados períodos do dia.

Diante dessas limitações, optou-se por abordagem clínica indireta e observacional, com correlação dos achados comportamentais ao contexto clínico global do paciente.

Lista de Problemas

P1- Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível de suporte 3.

P2- Agitação psicomotora

P3- Insônia

Abordagem Farmacológica Convencional

Base Inicial (Polifarmácia)

O paciente encontrava-se em uso de múltiplos psicotrópicos, incluindo: Neuleptil (periciazina), Risperidona, Amplictil (clorpromazina), Fluoxetina e Atensina (clonidina).

  • Tentativa de substituição da Risperidona por Aripiprazol, sem sucesso devido à baixa adesão do pai, que interrompeu a troca.
  • Introdução de Clonazepam, visando contenção das crises agudas, com resposta limitada.
  • Posterior necessidade de atendimento em emergência psiquiátrica, com introdução de Haloperidol (Haldol) após episódios de descompensação grave.

Abordagem Não Farmacológica

Foi orientada a introdução de Terapia Ocupacional, Psicopedagogia e intervenções específicas para TEA, com foco em organização sensorial e comportamental. No entanto, a implementação foi significativamente prejudicada pela fragilidade da rede de apoio, abandono das cuidadoras e sobrecarga extrema do cuidador principal.

Tratamento com Cannabis

Proposta Terapêutica Inicial

Foi proposta a introdução gradual de óleo rico em canabidiol (CBD), com titulação lenta, visando redução da agitação, melhora do padrão de sono e possível modulação da ansiedade basal.

Evolução

  1. Óleo nacional de baixa concentração: Observou-se leve melhora comportamental inicial. Contudo, a necessidade de grandes volumes para atingir doses terapêuticas resultou em efeitos gastrointestinais, principalmente diarreia, o que limitou a continuidade.
  2. Troca para produto importado (Full Spectrum 20.000 mg): A maior concentração permitiu escalonamento da dose até 130 mg/dia de CBD, com melhor tolerabilidade gastrointestinal.
  3. Associação com THC: Inicialmente em proporção 30:1 (CBD:THC), posteriormente aumentada. Essa estratégia resultou em uma piora evidente da agitação psicomotora e intensificação da ecolalia, motivo pelo qual o THC foi suspenso.

Planejamento terapêutico atual: Estratégia de aumento progressivo do CBD até 160 mg/dia, associada à introdução de Cannabigerol (CBG), com foco no controle da ansiedade, da irritabilidade e da agitação residual.

Acompanhamento e Evolução Clínica

Ao final do período descrito, observou-se melhora expressiva do quadro de agitação psicomotora, com redução significativa da intensidade e da frequência das crises comportamentais. Essa estabilização ocorreu principalmente após o ajuste da terapia farmacológica convencional, em especial com a introdução e titulação do Haloperidol até a dose de 15 mg/dia, realizada após atendimento em emergência psiquiátrica.

A partir desse ajuste, o paciente apresentou maior previsibilidade comportamental, permitindo manejo domiciliar mais seguro e redução da necessidade de intervenções de urgência. Embora o transtorno de base permaneça grave, a contenção adequada da agitação representou um avanço clínico relevante, criando condições para reavaliação e reorganização do plano terapêutico global.

Com o paciente clinicamente mais estável, o foco atual do tratamento passou a ser a otimização da terapia adjuvante com canabinoides, com estratégia de aumento progressivo do CBD e introdução do Cannabigerol (CBG), visando manutenção do controle comportamental a longo prazo, com menor dependência exclusiva de altas doses de antipsicóticos típicos.

image 7

Quando a farmacologia encontra o raciocínio clínico individualizado

Este caso clínico ilustra a complexidade do manejo de um paciente adulto com Transtorno do Espectro Autista nível 3, não verbal, com agitação psicomotora grave e resistência significativa às abordagens farmacológicas usuais. A estabilização clínica foi alcançada de forma gradual e exigiu intervenções de urgência, ajustes sucessivos e integração de diferentes estratégias terapêuticas.

A escolha pela manutenção do Haloperidol, após resposta clínica consistente, baseou-se em sua eficácia objetiva na contenção da agitação. Paralelamente, a reorganização da terapia canabinoide foi concebida como estratégia adjuvante e moduladora, com o objetivo de melhorar a regulação neurocomportamental e reduzir, ao longo do tempo, a necessidade de doses elevadas de antipsicóticos.

CBG como escolha racional

O racional clínico para a introdução do Cannabigerol (CBG) neste caso não se baseia em tentativa empírica, mas em uma análise fisiopatológica cuidadosa, orientada pela resposta prévia do paciente às diferentes classes farmacológicas. Diferentemente do THC, que desencadeou piora clara da agitação e intensificação da ecolalia — sugerindo sensibilidade individual ou efeito paradoxal —, o CBG foi considerado justamente por atuar em vias neurobiológicas complementares ao CBD, sem induzir potenciais efeitos psicotrópicos.

Do ponto de vista farmacológico, o CBG apresenta ação relevante sobre receptores alfa-2 adrenérgicos, mecanismo que se aproxima do efeito farmacológico da Clonidina (Atensina), medicação já utilizada pelo paciente. Essa via está diretamente relacionada à modulação da atividade simpática, contribuindo para a redução da hiperexcitabilidade autonômica, da ansiedade intensa e da agitação psicomotora. Trata-se, portanto, de uma escolha racional para um paciente com grave desregulação comportamental, em que se busca controle clínico sem exacerbação dos sintomas ou comprometimento cognitivo adicional.

Além disso, a introdução do CBG permite explorar o potencial efeito entourage de forma mais segura, substituindo o THC por um canabinoide com perfil mais adequado ao fenótipo do paciente. Em associação ao CBD, o CBG pode potencializar efeitos ansiolíticos e reguladores do comportamento, oferecendo suporte à manutenção da estabilidade clínica, especialmente em cenários nos quais o objetivo é reduzir, a médio e longo prazo, a dependência exclusiva de doses elevadas de antipsicóticos.

Naturalmente, essa abordagem exige monitorização clínica rigorosa. A ação alfa-2 do CBG implica risco de hipotensão arterial, o que reforça a necessidade de titulação lenta, progressiva e individualizada

Esse caso evidencia que prescrever canabinoides não é apenas escolher uma molécula, mas compreender mecanismos de ação, interações farmacológicas, perfis de resposta individual e estratégias de combinação. É justamente esse nível de raciocínio clínico que diferencia o uso empírico da prática médica baseada em conhecimento sólido e segurança terapêutica. Para o médico que deseja atuar com responsabilidade nesse campo em expansão, torna-se essencial buscar formação estruturada e aprofundada, capaz de transformar casos complexos como este em decisões clínicas conscientes, seguras e personalizadas.

As informações pessoais contidas neste caso clínico foram modificadas para preservar a identidade e a imagem do paciente, mantendo, no entanto, a veracidade e a integridade dos dados clínicos. Este é um relato baseado em um caso real, fundamentado na documentação médica e nas observações clínicas realizadas durante o acompanhamento do paciente. A finalidade é compartilhar o tratamento e as estratégias adotadas em um cenário clínico de relevância, respeitando sempre a confidencialidade e a ética médica.

Prepare-se para o Futuro: Certificação Internacional da WeCann Academy

Casos como o deste paciente com Transtorno do Espectro Autista nível 3, agitação psicomotora grave, resistência a múltiplas abordagens farmacológicas e rede de apoio fragilizada evidenciam um desafio cada vez mais presente na prática médica contemporânea: como manejar pacientes neuropsiquiátricos complexos quando os modelos tradicionais atingem seus limites.

A cannabis medicinal, nesse contexto, não se apresenta como solução simplista, mas como uma ferramenta terapêutica que exige raciocínio clínico refinado, compreensão profunda do sistema endocanabinoide, domínio da farmacologia dos diferentes fitocanabinoides e capacidade de integrar essa estratégia ao manejo de pacientes polimedicados, vulneráveis e com respostas imprevisíveis — como frequentemente ocorre no TEA.

Atuar com segurança em cenários como esse requer mais do que boa intenção: exige formação técnica sólida, leitura crítica de evidências científicas e entendimento claro de quando, como e para quem os canabinoides podem fazer diferença real. É justamente essa lacuna entre interesse e preparo que iniciativas educacionais especializadas buscam preencher.

A Certificação Internacional em Medicina Endocanabinoide da WeCann Academy surge como uma oportunidade estratégica para médicos que desejam desenvolver esse nível de consciência clínica. Com uma formação robusta, reconhecida internacionalmente e alinhada às melhores práticas, a WeCann capacita o profissional a tomar decisões fundamentadas, seguras e individualizadas — especialmente em casos complexos como o apresentado.

Investir nessa certificação é investir em excelência clínica, atualização responsável e na ampliação das possibilidades terapêuticas para pacientes com necessidades reais ainda pouco atendidas. Em um cenário de crescente complexidade assistencial, estar preparado deixou de ser opcional — tornou-se parte do compromisso médico com o cuidado de qualidade.

Inicie sua jornada de aprendizado com a WeCann Academy agora: Certificação em Medicina Endocanabinoide – WeCann Academy

image 5

WeCann News

Envios semanais com insights clínicos, protocolos baseados em evidência, atualizações científicas relevantes e discussão com especialistas.

Ao clicar você concorda com os termos de uso e política de privacidade

Mapa de Evidências da Cannabis Medicinal

194 estudos rigorosamente analisados revelam eficácia comprovada em 20 quadros clínicos.

Guia para Iniciantes: “Como escolher produtos à base de cannabis qualificados”

O essencial para tomar decisões seguras e embasadas na hora de prescrever derivados canabinoides.

Aula gratuita: “O Sistema Endocanabinoide: O que Todo Médico Precisa Conhecer sobre 
O Maestro do Corpo”

A modulação do sistema endocanabinoide será a tônica da Medicina do futuro.

Assista agora »