O 2-AG e a relação com o sistema imunológico

Publicado em 17/01/26 | Atualizado em 17/01/26 | Leitura: 12 minutos

Sistema Endocanabinoide

O Sistema Endocanabinoide (SEC) transcende a neurociência, consolidando-se como um sistema de sinalização lipídica central para a homeostase fisiológica. É fundamental reconhecer que o SEC não é apenas um maestro do equilíbrio metabólico e neuronal, mas também um modulador essencial e frequentemente subestimado da resposta imunológica humana.

Nesta intersecção crítica entre sinalização lipídica e imunidade, surge  o 2-Araquidonoilglicerol (2-AG). Sendo um dos principais endocanabinoides endógenos, o 2-AG não atua apenas como um neurotransmissor retrógrado no SNC, mas demonstra uma influência potente e específica no controle da inflamação e da resposta imune adaptativa e inata. Compreender a dinâmica do 2-AG e seu principal receptor periférico, o CB2, é abrir caminho para novas abordagens terapêuticas em condições caracterizadas por disfunção imunológica e inflamação crônica.

O que é o 2-AG e como ele age?

O 2-Araquidonoilglicerol (2-AG) é um dos monoacilgliceróis mais estudados e um lipídio bioativo endógeno, comportando-se como um agonista completo para ambos os receptores canabinoides, CB1​ e CB2​. Sua importância biológica é inquestionável; no cérebro, seus níveis são aproximadamente 170 vezes maiores que os da anandamida (AEA), um  outro importante endocanabinoide.²

Contudo, a relevância do 2-AG se estende vigorosamente além do SNC. A chave para o seu papel regulador da imunidade reside na distribuição estratégica do Receptor CB2​. Enquanto o CB1​ é reconhecido como o Receptor Acoplado à Proteína G (GPCR) mais expresso no Sistema Nervoso Central, o CB2​ possui localização predominante nas células do sistema imune e em tecidos periféricos.²

Essa localização específica permite que o 2-AG atue como um modulador fundamental da resposta inflamatória. Ao ligar-se ao CB2​ em células periféricas e no SNC (especialmente na Microglia, onde o CB2​ é expresso após insultos), o 2-AG desencadeia cascatas de sinalização que impactam diretamente a função das células de defesa. As principais células imunes que respondem a esse sinal incluem: Macrófagos, Neutrófilos, Mastócitos, Linfócitos T e Linfócitos B. A ativação do CB2 pelo 2-AG nessas células representa um mecanismo de feedback negativo essencial para controlar a intensidade e a duração da resposta imune, prevenindo o dano tecidual associado à inflamação desregulada.

A ação do 2-AG é caracteristicamente transitória e localizada, uma vez que ele não é armazenado em vesículas como os neurotransmissores clássicos, mas sim sintetizado e liberado “sob demanda”. Este rigoroso controle de tempo e espaço é garantido por um equilíbrio preciso entre enzimas biossintéticas e catabólicas no Sistema Endocanabinoide.²

Biossíntese: O Papel das DAGL

A principal via de síntese do 2-AG é Ca2+-dependente e envolve a ação sequencial da Fosfolipase C (PLC) e, crucialmente, da Diacilglicerol Lipase (DAGL).¹

  1. A PLC atua sobre os fosfolipídeos de membrana, gerando o diacilglicerol (DAG).
  2. A DAGL (principalmente as isoformas α e β) hidrolisa o DAG para formar o 2-AG.
Visão geral das principais vias biossintéticas e metabólicas para 2-AG. Fonte: Baggelaar MP, Maccarrone M, van der Stelt M. 2-Arachidonoylglycerol: A signaling lipid with manifold actions in the brain. Prog Lipid Res. 2018;71:1-17.
Visão geral das principais vias biossintéticas e metabólicas para 2-AG. Fonte: Baggelaar MP, Maccarrone M, van der Stelt M. 2-Arachidonoylglycerol: A signaling lipid with manifold actions in the brain. Prog Lipid Res. 2018;71:1-17.

Essa distinção das isoformas DAGL é clinicamente relevante: a DAGL−α é proeminente nos neurônios pós-sinápticos e regula a plasticidade sináptica retrógrada, enquanto a DAGL−β tem maior expressão em células do sistema imune e na microglia, conferindo-lhe um papel mais direto na neuroinflamação.

Degradação: O eixo MAGL e a inflamação

O sinal do 2-AG é rapidamente desativado pela hidrólise enzimática. A principal enzima responsável pelo catabolismo do 2-AG no cérebro é a Monoacilglicerol Lipase (MAGL), que responde por aproximadamente 85% da sua degradação. A MAGL atua principalmente nos terminais pré-sinápticos, terminando o sinal do 2-AG.¹

A hidrólise do 2-AG pela MAGL não apenas desativa o endocanabinoide, mas também é metabolicamente significativa, pois libera ácido araquidônico (AA) e glicerol.

  • O AA liberado é o principal precursor dos eicosanoides pró-inflamatórios (como as prostaglandinas PGE2​).
  • Portanto, a inibição da MAGL não só eleva o 2-AG (com efeitos CB1​/CB2​-mediados) mas, paradoxalmente, reduz o pool de AA livre, diminuindo a produção de mediadores inflamatórios. Este duplo mecanismo faz da MAGL um alvo promissor para terapias anti-inflamatórias e neuroprotetoras.

A complexidade da sinalização do 2-AG, desde sua síntese pontual pela DAGL até sua degradação multifacetada, ilustra a sofisticação do SEC em equilibrar a necessidade de rápida comunicação celular com a necessidade de controle rigoroso da inflamação.

O papel modulador do 2-AG na imunidade

O 2-AG e a ativação do Receptor CB2 atuam essencialmente como um mecanismo de downregulation, atuando como um “freio” farmacológico que modula e mitiga a hiperatividade imunológica.¹ Essa função é vital para prevenir a exacerbação das reações de defesa, que pode levar à inflamação crônica e autoimunidade.

  1. Ação Anti-inflamatória: A principal função observada da sinalização do 2-AG via CB2 é a redução da inflamação. Ao ser ativado, o CB2 pode:
  • Reduzir a produção de citocinas pró-inflamatórias: Diminui a síntese e a liberação de mediadores-chave como TNF−α, IL−6 e IL−1β.¹
  • Controlar a quimiotaxia: Influencia a migração das células imunes, limitando o recrutamento excessivo e a infiltração de leucócitos nos sítios de lesão, o que é crucial para resolver a inflamação.¹
  1. Imunossupressão ou Imunomodulação: Em contextos pós-infecciosos ou pós-lesionais, o 2-AG facilita a transição da fase efetora para a de resolução. Essa capacidade de exercer uma leve ação imunossupressora ou moduladora é fundamental para “desligar” a resposta imune, iniciando o reparo tecidual e restaurando a homeostase.
  2. Potencial em Doenças Autoimunes e Inflamatórias: Devido à sua robusta capacidade de atenuar a inflamação e modular a resposta imune, o eixo 2-AG/CB2​ é um alvo terapêutico de intenso estudo para condições mediadas pela inflamação descontrolada:
  • Doenças Neurodegenerativas com Componente Inflamatório: Como a Esclerose Múltipla (EM), onde a elevação do 2-AG pela inibição da MAGL se mostrou neuroprotetora e reduziu a gravidade dos sintomas em modelos pré-clínicos.3,4
  • Doenças Inflamatórias Crônicas: Incluindo a Artrite Reumatoide e a Doença Inflamatória Intestinal (DII), onde a modulação desse eixo pode oferecer novas vias para o manejo da inflamação sistêmica e localizada.¹

Implicações clínicas e perspectivas terapêuticas

A compreensão detalhada da síntese e degradação do 2-AG via eixo DAGL−MAGL forneceu novas e promissoras direções para a intervenção terapêutica em patologias complexas. A manipulação farmacológica desse sistema lipídico revela o papel crítico do 2-AG em modular desde a neuroinflamação até a percepção da dor.

1. Neuroinflamação e Doenças Neurodegenerativas

O 2-AG atua como um potente regulador do microambiente inflamatório, especialmente no SNC. A estratégia de inibir a MAGL (enzima de degradação do 2-AG) demonstrou consistentemente efeitos neuroprotetores em modelos animais.5 Contudo, a lógica por trás dessa proteção é dual e sofisticada:

  • Doença de Parkinson (DP): A neuroproteção conferida pela inibição da MAGL (com agentes como o JZL184) não é primariamente mediada pelos receptores canabinoides CB1​/CB2​. Em vez disso, o benefício deriva da redução do pool de AA livre e da subsequente diminuição na síntese de eicosanoides pró-inflamatórios (PGE2​ e PGD2​).6
  • Doença de Alzheimer (DA): A inativação da MAGL suprime respostas pró-inflamatórias, reduz o acúmulo de β-amiloide (Aβ) e induz a melhora da função cognitiva em modelos de DA.7
  • Lesão Cerebral Traumática (LCT): Nesses casos, o 2-AG exógeno provoca neuroproteção via ativação do CB1​ e inibe a transativação do fator nuclear NFκ−B.8

 

2.  Analgesia e modulação da Dor

O 2-AG é um agente analgésico potente, confirmando o potencial dos canabinoides na clínica da dor.¹ Seu efeito antinociceptivo é mediado por uma rede complexa de receptores:

  • Ação CB1​-Dependente: A elevação dos níveis endógenos de 2-AG por inibidores da MAGL (como o JZL184) produz antinocicepção em modelos de dor neuropática e inflamatória.9 Este efeito é classicamente bloqueado por antagonistas CB1​ (como o rimonabanto), evidenciando a crucial modulação retrógrada da neurotransmissão da dor.10
  • Vias não-canabinoides: O 2-AG estende sua atuação ao interagir com alvos “não-clássicos”, incluindo o receptor TRPV1 (receptor vaniloide) e o GPR55. A ativação do TRPV1 pelo 2-AG é particularmente relevante na regulação da dor inflamatória e da temperatura.11

 

A complexidade da sinalização do 2-AG, atuando como um mensageiro retrógrado no SNC e como um potente imunomodulador na periferia, o estabelece como um alvo terapêutico de alto valor. A otimização de inibidores seletivos de suas enzimas biossintéticas (DAGL) e catabólicas (MAGL) representa uma estratégia de precisão para restaurar o equilíbrio homeostático do SEC em condições que variam da neurodegeneração à dor crônica.

Conclusão

O 2-AG surgiu como um dos mais promissores mediadores do SEC, cuja sofisticação molecular o estabelece como um alvo terapêutico de alto valor. Ao atuar como o principal modulador do receptor CB2​ nas células de defesa, o 2-AG representa a própria inteligência regulatória do SEC sobre o sistema imunológico. Ele é o sinal endógeno que clama por homeostase, buscando mitigar o excesso de inflamação que está no cerne das patologias crônicas.

A otimização de inibidores seletivos para as enzimas biossintéticas (DAGL) e catabólicas (MAGL) do 2-AG não é apenas uma estratégia bioquímica, mas sim uma abordagem de precisão farmacológica para organizar o sistema imunológico. 

Dominar essa dinâmica molecular nos permitirá abrir novas e importantes abordagens para o manejo de doenças autoimunes, condições neurodegenerativas e síndromes de dor crônica refratárias, marcando uma das próximas fronteiras na medicina. O futuro da imunoterapia pode, de fato, residir no controle fino dessa minúscula, mas poderosa, molécula.

Prepare-se para o Futuro: Certificação Internacional da WeCann Academy

Assim como o Sistema Endocanabinoide redefiniu a compreensão da homeostase, o eixo 2-AG/CB2 amplia de forma decisiva o horizonte da imunologia contemporânea. Entender como essa molécula endógena regula a inflamação, a resposta imune e os processos de resolução tecidual é mais do que conhecimento teórico — é preparo clínico para uma medicina de precisão baseada em evidências científicas.

Estar à frente dessa evolução exige mais do que familiaridade com os conceitos. Exige compreender quando, como e em quais contextos clínicos a modulação do SEC — incluindo vias como DAGL e MAGL — pode fazer a diferença no manejo de doenças inflamatórias, autoimunes, neurodegenerativas e da dor crônica.

Nesse cenário, iniciativas educacionais especializadas tornam-se estratégicas para médicos que desejam liderar essa nova fase da medicina baseada em evidências. Dominar a biologia do 2-AG e sua interface com o sistema imunológico é um passo essencial para integrar ciência, segurança e racionalidade terapêutica à prática clínica.

A Certificação Internacional em Medicina Endocanabinoide da WeCann Academy surge como uma oportunidade estratégica para médicos que desejam se posicionar na vanguarda da medicina contemporânea. Com uma formação robusta, reconhecimento internacional e forte embasamento científico, a WeCann Academy capacita o profissional a compreender profundamente o SEC e a prescrever cannabis medicinal com domínio técnico, segurança e sensibilidade clínica.

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Referências

  1. Baggelaar MP, Maccarrone M, van der Stelt M. 2-Arachidonoylglycerol: A signaling lipid with manifold actions in the brain. Prog Lipid Res. 2018;71:1-17.
  2. MONTAGNER,Patrícia; DE SALAS-QUIROGA, Adán. Tratado de Medicina Endocanabinoide.1. ed. WeCann Endocannabinoid Global Academy, 2023.
  3. M. Brindisi, S. Maramai, S. Gemma, S. Brogi, A. Grillo, L.D. Mannelli, et al. Development and pharmacological characterization of selective blockers of 2-arachidonoyl glycerol degradation with efficacy in rodent models of multiple sclerosis and pain J Med Chem, 59 (6) (2016), pp. 2612-2632
  4. G. Hernandez-Torres, M. Cipriano, E. Heden, E. Bjorklund, A. Canales, D. Zian, et al. A reversible and selective inhibitor of monoacylglycerol lipase ameliorates multiple sclerosis Angew. Chem. Int. Ed., 53 (50) (2014), pp. 13765-13770
  5. N. Murataeva, A. Straiker, K. Mackie Parsing the players: 2-arachidonoylglycerol synthesis and degradation in the CNS Br J Pharmacol, 171 (6) (2014), pp. 1379-1391
  6. D.K. Nomura, B.E. Morrison, J.L. Blankman, J.Z. Long, S.G. Kinsey, M.C. Marcondes, et al. Endocannabinoid hydrolysis generates brain prostaglandins that promote neuroinflammation Science, 334 (6057) (2011), pp. 809-813
  7. J.R. Piro, D.I. Benjamin, J.M. Duerr, Y. Pi, C. Gonzales, K.M. Wood, et al. A dysregulated endocannabinoid-eicosanoid network supports pathogenesis in a mouse model of Alzheimer’s disease Cell Rep, 1 (6) (2012), pp. 617-623
  8. D. Panikashvili, N.A. Shein, R. Mechoulam, V. Trembovler, R. Kohen, A. Alexandrovich, et al. The endocannabinoid 2-AG protects the blood-brain barrier after closed head injury and inhibits mRNA expression of proinflammatory cytokines Neurobiol Dis, 22 (2) (2006), pp. 257-264
  9. J. Guindon, Y. Lai, S.M. Takacs, H.B. Bradshaw, A.G. Hohmann Alterations in endocannabinoid tone following chemotherapy-induced peripheral neuropathy: effects of endocannabinoid deactivation inhibitors targeting fatty-acid amide hydrolase and monoacylglycerol lipase in comparison to reference analgesics following cisplatin treatment Pharmacol Res, 67 (1) (2013), pp. 94-109
  10. S.G. Kinsey, J.Z. Long, S.T. O’Neal, R.A. Abdullah, J.L. Poklis, D.L. Boger, et al. Blockade of endocannabinoid-degrading enzymes attenuates neuropathic pain J Pharmacol Exp Ther, 330 (3) (2009), pp. 902-910
  11. P.M. Zygmunt, A. Ermund, P. Movahed, D.A. Andersson, C. Simonsen, B.A. Jonsson, et al. Monoacylglycerols activate TRPV1—a link between phospholipase C and TRPV1 Plos One, 8 (12) (2013), Article e81618

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