Todo médico que começa a estudar cannabis medicinal passa, mais cedo ou mais tarde, pela mesma cena no consultório:
“Doutor(a), ouvi dizer que cannabis, CBD pode ajudar no meu caso. O que você acha?”
Esse momento é decisivo. Não apenas para o paciente — mas para a forma como você, como médico, vai se posicionar diante da medicina endocanabinoide.
Este guia foi pensado exatamente para isso: ajudar você a orientar seu primeiro paciente com segurança, clareza e embasamento científico, mesmo que ainda esteja em fase inicial de aprofundamento no tema.
Veja nessa postagem
O primeiro passo: explicar o que o paciente nunca ouviu falar
O ponto de partida dessa conversa raramente deve ser a molécula. Antes de falar em THC ou CBD, faz mais sentido explicar ao paciente que o corpo humano possui um sistema fisiológico próprio dedicado à regulação do equilíbrio interno: o Sistema Endocanabinoide. Trata-se de um sistema presente em todos os vertebrados, com papel central na manutenção da homeostase, modulando dor, humor, sono, apetite, memória e resposta imunológica.
Sistema Endocanabinoide
Quando o paciente entende que a cannabis não atua “de fora para dentro”, mas dialoga com um sistema biológico já existente, a percepção do tratamento muda. O médico também ganha espaço para explicar que esse sistema é altamente individual, composto por receptores — principalmente CB1, mais concentrado no sistema nervoso central, e CB2, predominante em células imunológicas —, endocanabinoides produzidos pelo próprio organismo, como a anandamida e o 2-AG, e enzimas que regulam sua síntese e degradação.¹
Essa individualidade ajuda a justificar por que não existem doses universais e por que pacientes com o mesmo diagnóstico podem demandar estratégias completamente distintas.
Para aprofundar seus conhecimentos em sistema endocanabinoide, acesse agora: O que é o Sistema Endocanabinoide? – WeCann Academy
E é importante reforçar: essa abordagem não se sustenta apenas em plausibilidade biológica. Hoje, já dispomos de evidências científicas qualificadas e sistematizadas que permitem avançar com mais segurança na tomada de decisão clínica.
Um exemplo robusto é o Mapa de Evidências da Cannabis Medicinal, desenvolvido a partir de um consórcio institucional que reúne a WeCann Academy, o CABSIN, a BIREME e a OPAS. Utilizando uma metodologia transparente, reprodutível e internacionalmente reconhecida, o Mapa analisou 194 revisões sistemáticas e metanálises, organizando os achados em uma matriz de intervenções e desfechos que revela, de forma clara, onde há consistência científica e onde ainda existem lacunas de conhecimento.
O resultado é uma ferramenta de aplicabilidade clínica imediata, que sintetiza décadas de pesquisa global e demonstra evidência qualificada em 20 quadros clínicos, incluindo dor crônica e neuropática, epilepsia, esclerose múltipla, insônia, transtornos de ansiedade, distúrbios do sono e segurança do paciente.
Para consultar as evidências científicas mais qualificadas disponíveis hoje, explore o Mapa de Evidências da Cannabis Medicinal na íntegra. Acesse agora: Mapa de Evidências – WeCann Academy
A “farmácia” dentro da planta
A partir daí, a conversa naturalmente avança para a planta. A Cannabis sativa funciona como uma verdadeira farmácia bioquímica, com centenas de compostos ativos que atuam de forma integrada. Entre eles, o THC e o CBD são os mais conhecidos, mas certamente não os únicos relevantes.
O THC, quando utilizado em contexto médico e em doses bem tituladas, apresenta propriedades analgésicas, anti eméticas, relaxantes musculares e indutoras do sono, com baixa incidência de efeitos psicotrópicos indesejáveis.¹
O CBD, por sua vez, não é psicotrópico e exerce efeitos ansiolítico, antiepiléptico, anti-inflamatório e neuroprotetores, além de modular os efeitos do THC, reduzindo ansiedade e taquicardia em alguns pacientes.¹
Outros canabinoides e os terpenos também participam ativamente da resposta clínica. Compostos como CBG, CBN e THCV ampliam o espectro terapêutico, enquanto terpenos como mirceno e limoneno modulam tanto a eficácia quanto os efeitos adversos.
É nesse contexto que o conceito de efeito entourage ganha importância prática: extratos de espectro completo tendem a ser mais eficazes e melhor tolerados do que moléculas isoladas, justamente pela sinergia entre seus componentes.
Esse nível de complexidade ajuda a entender por que a prescrição de cannabis medicinal não pode ser reduzida a “THC versus CBD”. A compreensão aprofundada das interações entre fitocanabinoides, terpenos, vias metabólicas e respostas clínicas exige uma base teórica sólida e organizada. É exatamente essa lacuna que o Tratado de Medicina Endocanabinoide se propõe a preencher, reunindo fisiologia, farmacologia e aplicações clínicas de forma integrada, para que o médico consiga transpor esse conhecimento da teoria para o consultório com mais segurança e precisão.

Vias de administração
Na prática clínica, a via de administração costuma ser um dos primeiros determinantes da experiência do paciente. Óleos e extratos por via oral ou sublingual são os mais utilizados para sintomas crônicos, com início de ação mais lento e duração prolongada. A absorção, por serem compostos lipofílicos, é significativamente maior quando ingeridos após refeições ricas em gordura.2,3
Já a via inalatória, por vaporização, pode ser útil em situações agudas, como dor irruptiva ou náuseas intensas, desde que se evite a combustão. Formulações tópicas, por sua vez, encontram espaço em condições localizadas, com mínima repercussão sistêmica.4
Independentemente da via escolhida, a estratégia prescritiva segue um princípio simples, porém frequentemente negligenciado: começar com doses baixas e avançar de forma gradual. A busca não é pela dose máxima tolerada, mas pela menor dose capaz de oferecer benefício clínico consistente.
A resposta bifásica dos canabinoides merece ser explicada ao paciente desde o início, pois doses excessivas podem inverter o efeito esperado. Medir a dose em miligramas, e não apenas em gotas, contribui para maior precisão e previsibilidade do tratamento.
Prescrevendo com Segurança
Do ponto de vista de segurança, a cannabis apresenta um perfil favorável. Não há risco de overdose letal, uma vez que não existem receptores canabinoides no tronco cerebral. Ainda assim, efeitos adversos como sonolência, tontura, boca seca e fadiga podem ocorrer, especialmente nas fases iniciais. ¹
Descubra sobre os possíveis efeitos colaterais e como evitá-los, acesse: Possíveis efeitos colaterais do Canabidiol e como evitá-los
Alguns perfis exigem cautela adicional, como idosos, gestantes, adolescentes, pacientes com histórico de psicose ou doenças cardiovasculares instáveis. Além disso, a metabolização hepática via citocromo P450 torna imprescindível atenção às interações medicamentosas, especialmente com varfarina, clobazam e ácido valproico.¹
Para saber mais sobre o uso de cannabis medicinal e as possíveis interações medicamentosas, acesse: Cannabis medicinal e interações medicamentosas
Acesso Legal
Outro ponto que costuma gerar insegurança tanto no médico quanto no paciente é o acesso legal. No Brasil, a prescrição segue normas bem definidas pela Anvisa, seja por meio de produtos disponíveis em farmácias, seja por importação excepcional. Orientar o paciente de forma clara sobre esse processo, bem como sobre a importância do Certificado de Análise Laboratorial para garantir qualidade e segurança, faz parte do cuidado médico responsável.
Para saber sobre os produtos liberados pela ANVISA, acesse: Cannabis medicinal e Anvisa: conheça os 35 produtos já registrados
Monitoramento
Com o início do tratamento, o acompanhamento se torna mais relevante do que a própria prescrição. Incentivar o paciente a registrar doses, horários, benefícios e efeitos adversos permite ajustes mais precisos e fortalece a relação terapêutica. Também é fundamental alinhar expectativas: a cannabis não é uma solução universal e não funciona para todos os pacientes. Em contrapartida, em muitos casos, pode permitir a redução gradual e supervisionada de diversos medicamentos, como opioides, anticonvulsivantes, ansiolíticos e benzodiazepínicos, com impacto positivo na funcionalidade global e na qualidade de vida dos pacientes.
Conclusão
Quando, na primeira consulta, o paciente pergunta no consultório se a cannabis pode ajudá-lo, essa não é apenas uma dúvida clínica pontual. É um convite ao médico para assumir uma posição. Ao longo desta leitura, talvez você tenha revivido exatamente esse momento: a pergunta direta, o breve silêncio antes da resposta e a intuição de que há, sim, um potencial terapêutico relevante ali — mas que ele não pode ser explorado de forma improvisada ou superficial. A cannabis medicinal tem essa característica singular: quanto mais se estuda, mais evidente se torna a complexidade envolvida e a necessidade de aprofundamento para que a prática seja segura, ética e clinicamente eficiente.
Prepare-se para o Futuro: Certificação Internacional da WeCann Academy
Na prática clínica, orientar adequadamente o primeiro paciente exige muito mais do que conhecer THC e CBD. Exige compreensão aprofundada do sistema endocanabinoide, domínio de princípios farmacológicos ainda pouco explorados na formação médica tradicional, reconhecimento de limites e interações e, sobretudo, o desenvolvimento de um raciocínio clínico capaz de individualizar condutas. Não se trata simplesmente de prescrever uma nova substância, mas de adotar um modelo terapêutico fundamentado em ciência, que atua na modulação do sistema endocanabinoide e permite a personalização do tratamento, respeitando a singularidade biológica e clínica de cada paciente.
Com o amadurecimento da prática, surge algo quase inerente ao exercício da medicina: a busca contínua por aperfeiçoamento clínico. À medida que os casos se tornam mais complexos e as decisões mais refinadas, o médico passa a procurar não apenas mais informação, mas uma compreensão mais ampla, organizada e aplicável à realidade do consultório. No campo da medicina endocanabinoide, isso significa ir além de conteúdos fragmentados e encontrar uma formação que integre fisiologia, farmacologia, evidência científica e experiência clínica de maneira coerente.
É nesse movimento que a necessidade de uma base estruturada se impõe. Uma formação que ofereça visão global, método e profundidade, permitindo transformar conhecimento em raciocínio clínico e decisões terapêuticas mais seguras. A Certificação Internacional em Medicina Endocanabinoide da WeCann Academy surge, então, não como um passo adicional, mas como a continuidade natural desse processo. Trata-se de uma formação pensada para médicos que desejam compreender a medicina endocanabinoide de forma profunda, crítica e aplicada, convertendo conhecimento em impacto real na qualidade de vida de pacientes que, muitas vezes, já esgotaram outras opções terapêuticas.
Ao final, a reflexão que permanece não é se a cannabis medicinal faz parte do presente da medicina — isso já é uma realidade consolidada. A questão central é se você está preparado para utilizá-la com o nível de responsabilidade, conhecimento e segurança que seus pacientes legitimamente esperam.
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Referências
- MONTAGNER,Patrícia; DE SALAS-QUIROGA, Adán. Tratado de Medicina Endocanabinoide.1. ed. Wecann Endocannabinoid Global Academy, 2023.
- WALL, M. E. et al. Metabolism, disposition, and kinetics of delta-9- tetrahydrocannabinol in men and women. Clinical Pharmacology and Therapeutics, [s. l.], v. 34, n. 3, p. 352–363, 1983.
- Bachhuber, M., Arnsten, J. H. & Wurm, G. Use of Cannabis to Relieve Pain and Promote Sleep by Customers at an Adult Use Dispensary. J.Psychoactive Drugs 51,400-404 (2019).
- Huestis. M.A.Human Cannabinoid Pharmacokinetics. Cbem. Biodivers. 4, 1770-1804 (2007).