Identificação
Paciente 74 anos de idade, sexo masculino
Apresentação do Caso Clínico
Paciente portador de Tremor Essencial (TE), com diagnóstico confirmado após múltiplas avaliações neurológicas. A hipótese de Doença de Parkinson foi adequadamente descartada. O paciente realizou testes terapêuticos prévios com levodopa (Prolopa) e primidona (Primid), ambos sem resposta clínica. A única intervenção farmacológica com benefício parcial foi o propranolol, atualmente em uso na dose de 20 mg duas vezes ao dia (40 mg/dia).
O quadro motor apresenta influência significativa de um componente ansioso associado, com exacerbação dos tremores em situações sociais devido à ansiedade antecipatória e ao constrangimento de ser percebido tremendo.

Antecedentes Patológicos e Histórico Familiar
O paciente possui histórico familiar relevante de Tremor Essencial, reforçando a predisposição genética da condição.
Medicações concomitantes (além do propranolol):
- Levotiroxina (LVT) 75 mcg 1x/dia
- Citalopram 20 mg 1x/dia
- Forxiga 10 mg 1x/dia (prescrito por cardiologista, sem diagnóstico de diabetes mellitus)
- Rosuvastatina 10 mg 1x/dia
Exames Complementares
Exames laboratoriais e avaliações realizadas em setembro de 2025 encontravam-se dentro da normalidade. A exclusão de Parkinson foi confirmada por outros especialistas após investigação clínica e neurológica completa.
Lista de Problemas
Tremor Essencial (TE) com exacerbação relacionada à ansiedade.
Plano Terapêutico
O manejo farmacológico do Tremor Essencial é desafiador, e a resposta aos canabinoides varia amplamente entre os indivíduos. Assim, a titulação deve ser dinâmica e individualizada.
Como o tremor é fortemente desencadeado por situações de ansiedade e exposição social, a abordagem terapêutica deve priorizar o controle da ansiedade, visando redução indireta dos tremores.
Tratamento com Cannabis Medicinal
O tratamento com canabinoides foi iniciado em 24/09/2025.
Proposta Terapêutica Inicial
O tratamento foi iniciado com uma formulação full spectrum rica em CBD, na proporção 20:1 (CBD:THC), com concentração de 50 mg/mL, associada a uma goma noturna com 5 mg de CBD + THC.
A posologia inicial incluía 30 mg de CBD ao longo do dia, divididos em duas tomadas, e 5 mg de THC exclusivamente no período noturno. Após algumas semanas sem melhora significativa do tremor, mas com excelente tolerabilidade, procedeu-se ao primeiro ajuste de dose, elevando o CBD para 32,5 mg/dia e o THC para 7,5 mg/dia, mantendo a goma noturna e introduzindo leve incremento na concentração de THC.
Ainda não houve resposta objetiva no controle do tremor, mas observou-se melhora relevante na qualidade do sono, o que permitiu ao paciente suspender o uso da Passiflora previamente utilizada como indutor do sono.
Abordagem farmacológica e não farmacológica
Dentro da abordagem farmacológica, considerou-se que o tremor essencial associado à ansiedade responde melhor quando o componente ansioso é adequadamente tratado, especialmente em situações sociais desencadeadoras. Dessa forma, manteve-se o foco em estabilizar a ansiedade diurna, trabalhando com a hipótese de que pequenas doses de canabinoides administradas mais vezes ao longo do dia poderiam modular melhor os sintomas.
Para isso, planeja-se ajustar a posologia diurna, testando fracionamentos em duas, três ou quatro tomadas, priorizando microdoses que somem ao final do dia o total estabelecido na titulação. Também se discutiu a possibilidade futura de buscar uma proporção mais equilibrada entre CBD e THC, possivelmente aproximando-se de 1:1, caso o paciente siga tolerando bem o THC e não apresente efeitos colaterais.
Considerou-se ainda o papel do CBG, que pode ser introduzido em formulações diurnas para apoiar o aumento de GABA e contribuir para a modulação autonômica, especialmente em relação a picos de pressão arterial.
A abordagem não farmacológica permanece fundamental para amplificar os efeitos da terapia com cannabis. O paciente foi orientado a manter a rotina de exercícios físicos, priorizando práticas que melhorem controle motor fino e consciência corporal. Atividades como movimentos coordenados, exercícios de resistência leve e práticas integrativas podem favorecer a redução global da excitabilidade motora.
Além disso, reforçou-se a importância do acompanhamento psicoterápico, dado o papel central da ansiedade na exacerbação dos tremores, e da avaliação nutricional e intestinal, que podem influenciar tanto o humor quanto a resposta terapêutica.
Acompanhamento
O acompanhamento clínico será contínuo e baseado na observação dos horários em que o tremor ocorre com maior intensidade, buscando correlacionar padrões com a ação das medicações já utilizadas, com os canabinoides e com possíveis gatilhos emocionais. Também se alertou para o fato de que doses mais baixas de cannabis tendem a exigir mais tempo para gerar resposta terapêutica, enquanto doses mais altas podem acelerar o efeito, mas posteriormente demandar redução por tolerância ou adaptação do organismo.
Quanto aos ajustes no tratamento, o plano inclui a possibilidade de incrementar lentamente a dose de THC noturno para reforçar o efeito ansiolítico e avaliar, em segunda etapa, microdoses diurnas de THC de maneira extremamente cautelosa. Em paralelo, pretende-se testar incrementos gradativos de CBD até que o paciente chegue a uma faixa considerada terapêutica efetiva para modulação emocional e motora, sempre monitorando a proporção entre os compostos, já que o THC costuma ser o fator limitante.
A evolução do tratamento até o momento demonstra ausência de benefício sobre o tremor, porém melhora consistente na qualidade do sono e boa tolerância, sem eventos adversos. Essa evolução sugere que o paciente é um bom candidato a ajustes graduais e possivelmente a formulações com maior complexidade canabinoide.

Conclusão
A evolução do caso demonstra que, embora ainda não tenha havido redução objetiva do tremor essencial, o paciente apresentou benefícios clínicos relevantes com o uso de cannabis medicinal, especialmente na qualidade do sono e no manejo da ansiedade noturna, sem relato de efeitos adversos. Esses primeiros avanços reforçam um ponto fundamental na terapêutica canabinoide: a resposta é gradual, individualizada e frequentemente dependente de ajustes finos de dose, proporção e frequência de administração.
Diante disso, torna-se evidente a necessidade de acompanhamento próximo e contínuo, permitindo monitorar padrões de tremor, identificar gatilhos emocionais, ajustar microdoses diurnas e avaliar diferentes proporções de canabinoides. A boa tolerabilidade até o momento abre espaço para progressões terapêuticas, como incrementos graduais de CBD, introdução cautelosa de THC em microdoses e eventual inclusão de CBG como modulador adicional.
Além do manejo farmacológico, o caso reforça a importância de uma abordagem integrada, combinando intervenções físicas, psicoterápicas e nutricionais para potencializar o controle motor e reduzir a excitabilidade relacionada à ansiedade. Assim, o tratamento segue em curso com perspectiva positiva, sustentado pela titulação cuidadosa, pela adaptação individual e pela ampliação progressiva do arsenal terapêutico baseado no sistema endocanabinoide.
O manejo deste caso destaca, portanto, o valor da cannabis medicinal como ferramenta complementar no tratamento do Tremor Essencial, bem como a importância de um plano terapêutico dinâmico, centrado na resposta clínica e ajustado ao longo do tempo para maximizar os benefícios ao paciente.
As informações pessoais contidas neste caso clínico foram modificadas para preservar a identidade e a imagem do paciente, mantendo, no entanto, a veracidade e a integridade dos dados clínicos. Este é um relato baseado em um caso real, fundamentado na documentação médica e nas observações clínicas realizadas durante o acompanhamento do paciente. A finalidade é compartilhar o tratamento e as estratégias adotadas em um cenário clínico de relevância, respeitando sempre a confidencialidade e a ética médica.
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