Cannabis como adjuvante terapêutico no paciente com câncer

Cannabis e câncer

 

Descubra os benefícios da Cannabis medicinal no contexto oncológico para oferecer uma melhor qualidade de vida para os seus pacientes.

Dor crônica, fadiga, insônia e inapetência são alguns dos sintomas frequentemente associados a diversos tipos de câncer. Quadros de ansiedade, depressão, náuseas e vômitos advindos dos protocolos de radio e quimioterapia também são comuns em pacientes com câncer. O uso da Cannabis medicinal enquanto adjuvante terapêutico no contexto oncológico demonstra resultados promissores que reforçam o potencial dessa planta no combate aos sintomas do câncer e dos efeitos colaterais advindos do seu tratamento.

Entretanto, para fazer uma prescrição assertiva e alcançar resultados positivos é preciso estar por dentro dos preceitos científicos que envolvem a terapêutica canabinoide. Inclusive, é a própria desinformação e a falta de conhecimento no assunto que fazem com que muitas vezes o médico abra mão desse valioso adjuvante no tratamento oncológico.

Se você deseja incluir a Cannabis medicinal no seu arsenal terapêutico com segurança e eficácia, guarde este post nos seus favoritos. Falaremos dos benefícios da terapêutica canabinoide em pacientes com câncer e como explorar ao máximo o potencial dessa planta com base em evidência científica. Confira!

 

Os derivados canabinoides no contexto oncológico

Apesar de o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabinol) serem os fitocanabinoides mais conhecidos da Cannabis medicinal e, também, os mais explorados pelas pesquisas científicas no momento, a Cannabis é uma planta que reúne mais de 500 compostos químicos, todos eles com potencial terapêutico próprio.

 

 

Os terpenos, por exemplo, representam um potencial farmacológico à parte – mais de 120 deles já foram descritos. Esses compostos são responsáveis pelo aroma da planta. Para as plantas, os terpenos funcionam como repelente natural para afastar predadores, para nós, os terpenos representam um potencial farmacológico decisivo no contexto de uso medicinal da Cannabis.

Estes compostos interagem com os canabinoides e produzem uma forte influência nos efeitos fisiológicos que os produtos à base de Cannabis vão apresentar. Portanto, conhecer e entender o perfil de terpenos de cada produto é fundamental para propor um tratamento cada vez mais assertivo e refinado.

Até porque um resultado otimizado na terapêutica canábica acontece justamente quando o Efeito Entourage (ou efeito comitiva) da planta é explorado. Nessa interação, todos os compostos da Cannabis – canabinoides, terpenos, flavonoides, entre outras substâncias – atuam em sinergia para otimizar os ganhos terapêuticos e modular potenciais efeitos adversos.

 


Uma prova da potencialidade dos terpenos é que existem diversos pacientes que fazem uso de quantitativos exatamente iguais de THC e CBD para os mesmos problemas de saúde, porém, apresentam respostas muito distintas. Isso demonstra que os terpenos e demais componentes da planta Cannabis, como flavonoides e canabinoides menores, exercem uma interação química decisória nessa terapêutica.


 

A importância do Efeito Entourage, já foi evidenciada inclusive, no potencial antitumoral de produtos full spectrum (produzidos com o extrato completo da planta) em comparação ao uso de compostos isolados. Um exemplo é esta pesquisa publicada em 2018, que demonstrou um significativo aumento de respostas antineoplásicas em células tumorais do câncer de mama  com a administração de extratos da planta completa predominantes em THC, quando comparados à administração do THC isolado.

Outro fator decisivo no contexto da Cannabis medicinal é que cada paciente tem sua própria estrutura bioquímica e um Sistema Endocanabinoide (SEC) único, o que significa que o metabolismo das substâncias canabinoides no organismo também é absolutamente individual. Isso explica porque existe tanta variação na dose média terapêutica dos pacientes e porque alguns pacientes parecem ser refratários a certas estratégias de uso dos derivados canabinoides.

>>> Falando em Sistema Endocanabinoide, veja este post para entender o que é o SEC, como funciona e por que você precisa conhecê-lo!<<<

Para o paciente com câncer, a cannabis medicinal apresenta uma série de potenciais benefícios, especialmente, no manejo de sintomas associado ao câncer e seu tratamento. Um dos maiores desafios para manejar casos clínicos de maior complexidade, como no contexto oncológico, vem justamente da refratariedade às terapias convencionais e aos importantes efeitos adversos comumente associados  a essas terapias. Sobretudo nesses casos, é importante conhecer o perfil das principais quimiovariantes da planta, de modo a otimizar os resultados e prescrever um produto à base de Cannabis com perfil ideal para cada paciente.

Os fitocanabinoides mais conhecidos e explorados cientificamente até o momento, o CBD e o THC são produzidos a partir de uma complexa sequência de reações bioquímicas dentro do tricoma da flor da Cannabis. Atualmente, existem três quimiovariantes dessa planta bem conhecidas:

  • Quimiovariante tipo I (predominantemente rica em THC);
  • Quimiovariante tipo II (proporcionalmente rica em THC e CBD);
  • Quimiovariante tipo III (predominantemente rica em CBD).

 

Tipos de Quimiovariante

 

O CBD e o THC são capazes de interagir com os receptores do Sistema Endocanabinoide para equilibrar uma série de processos patológicos e fisiológicos, entre eles, os principais sintomas associados ao contexto oncológico como inapetência, náuseas e vômitos, dor, insônia e ansiedade.

Um exemplo é esta pesquisa publicada em 2020, que avaliou 101 pacientes com doenças graves usuários de Cannabis medicinal, sendo 76% deles portadores de câncer.  A maioria dos pacientes avaliados (98%) considerou o uso adjuvante dos canabinoides eficaz para o controle da dor

Dentre os pacientes com câncer, a maioria (59%) relatou que a Cannabis é importante não só para o alívio da dor, mas também para o  controle de outros sintomas, como ansiedade e insônia, relatando sensações de bem-estar associadas ao uso da planta, sem a ocorrência de efeitos adversos importantes.

Este outro estudo, publicado em 2018, foi ainda mais abrangente ao avaliar um grupo de 2.970 pacientes com câncer tratados com cannabis medicinal entre 2015 e 2017. Os resultados sinalizaram a segurança e a eficácia dos canabinoides como adjuvantes no tratamento do câncer, trazendo mais qualidade de vida para os pacientes que estão lidando com os sintomas relacionados à malignidade da doença.

Após seis meses de acompanhamento, os pacientes responderam da seguinte maneira à terapêutica canábica: 95,9% deles relataram uma melhora geral em seu quadro, 3,7% não relataram nenhuma mudança e 0,3% relataram piora em sua condição médica.

 

Comportamento das Quimiovariantes

 

A seguir, resumimos as  principais evidências de uso da Cannabis medicinal como agente terapêutico adjuvante no câncer.

 

 

Alívio de dor

Especialmente quimiovariantes predominantes em THC apresentam respostas positivas nos níveis de percepção de dor crônica e neuropática decorrentes do câncer e do tratamento oncológico.

Apesar de frequentemente não “zerar” a percepção da dor nessas situações, os principais resultados incluem a diminuição da intensidade da dor e o aumento do nível de tolerância em relação às sensações desagradáveis relacionadas à dor. O melhor controle da dor auxilia de forma considerável no bem-estar do paciente, aprimorando seu status funcional e impactando sua qualidade de vida.

 

Sensação de relaxamento e bem-estar

É cientificamente comprovado o efeito anti-espasmódico e relaxante muscular do THC. Além disso, o estado de euforia resultante da psicoatividade do THC frequentemente contribui para a sensação de bem-estar, melhora do humor e redução da ansiedade em pacientes com câncer, que estão em profundo estado de sofrimento físico e psíquico.

 

Controle de náuseas e vômitos

O potencial anti-emético é outra propriedade do THC já amplamente explorada pela ciência. Esse fitocanabinoide auxilia na redução dos sintomas de náuseas e vômitos em pacientes submetidos aos regimes de radio e quimioterapia, impactando diretamente a qualidade de vida de quem está sob esses tratamentos.

 

Estimulação do apetite

Um dos atributos mais conhecidos e cientificamente documentados do THC é a estimulação do apetite. Não à toa, medicamentos à base de THC já são utilizados há bastante tempo como adjuvantes no tratamento de pacientes oncológicos ou portadores de outras doenças que induzem à caquexia, a exemplo da AIDS e de alguns transtornos neuropsiquiátricos.

>> Sobre esse tema, confira o artigo Dronabinol oral solution in the management of anorexia and weight loss in AIDS and cancer, dos autores Melissa E Badowski, Paa Kwesi Yanful.

 

Indução do sono

O THC é um potencial indutor do sono, sobretudo quando seu uso está associado a terpenos de potencial sedativo como o mirceno, reforçando a sinergia do efeito entourage da Cannabis. Por melhorar o padrão de sono, a administração de quimiovariantes predominantes em THC ajudam a reduzir e desmamar o uso de benzodiazepínicos de pacientes portadores de insônia e outros transtornos do sono.

 

Potencial antineoplásico dos derivados canabinoides

Como abordamos previamente, existem diversos estudos evidenciando que o uso assertivo da Cannabis medicinal pode minimizar muitos sintomas comuns ao paciente com câncer.

Porém, no contexto oncológico, o potencial terapêutico da Cannabis demonstra ir muito além. Numerosos estudos pré-clínicos vêm demonstrando os efeitos antitumorais dos derivados canabinoides. Por isso, é fundamental acompanhar a evolução desse tema para avaliar as perspectivas de ganhos terapêuticos em longo prazo a partir dessas novas descobertas.

Estudos preliminares que abordam o tema, incluem experimentos que demonstram o potencial dos canabinoides em inibir o crescimento de células tumorais in vitro e em modelos animais, através de diferentes mecanismos, que envolvem a indução de apoptose e a inibição da angiogênese e metastização de células tumorais.

Alguns trabalhos recentes trazem resultados mais robustos e específicos, como neste experimento publicado em 2021, que aponta os efeitos antitumorais da formulação à base de Cannabis nabiximols no combate ao glioblastoma multiforme (GBM) – também conhecido como glioblastoma grau IV, que é o tipo mais comum e agressivo de tumor maligno cerebral que acomete seres humanos.

 

Os resultados parciais desse ensaio clínico randomizado, controlado e duplo-cego, realizado com um grupo de pacientes que já apresentaram recorrência do GBM, mostram que a taxa de sobrevida em 1 ano para os pacientes que fizeram uso do extrato de Cannabis foi de 83%. Em contrapartida, no grupo controle, os pacientes tratados com placebo apresentaram uma taxa de sobrevida em 1 ano de apenas 44%.

 

 

Apesar dos resultados animadores, pesquisas clínicas nessa área ainda são preliminares. Por isso, é importante ressaltar que a terapêutica canábica não deve ser utilizada para substituir medicamentos quimioterápicos e os protocolos terapêuticos oncológicos habituais. O uso da Cannabis medicinal no contexto oncológico deve ser uma terapia adjuvante, auxiliando no resgate da qualidade de vida dos pacientes portadores de câncer e potencializando os protocolos terapêuticos oncológicos habituais.

 

Considerações finais

A prescrição de derivados canabinoides para pacientes com câncer exige conhecimento técnico e acurácia para trazer bons resultados.

Além de individualizar os tratamentos conforme o contexto clínico de cada paciente, o médico precisa estar devidamente preparado para reconhecer o perfil do medicamento à base de Cannabis que será prescrito, equilibrando efeitos terapêuticos e eventuais efeitos adversos para encontrar a dosagem ótima a ser ministrada em cada um dos casos.

Somente um curso de excelência é capaz de proporcionar esse conhecimento disruptivo aos médicos que desejam incorporar a terapêutica canábica com eficácia e segurança em sua prática prescritiva. A WeCann Academy é comprometida com a sua  jornada de aprendizado e oferece uma Certificação Internacional em Medicina Endocanabinoide, amparada por profissionais de várias partes do mundo com ampla experiência prescritiva.

Conectamos especialistas de todo o mundo em uma comunidade global de estudos em Sistema Endocanabinoide para interligar conhecimento científico e experiência prática no uso medicinal da Cannabis.

 

Quer fazer parte desta comunidade? Entre em contato conosco e prepare-se para esta nova fronteira da Medicina!

 


Referências

Abrams DI. Integrating cannabis into clinical cancer care. Curr Oncol. 2016.

Bar-Lev Schleider L, Mechoulam R, Lederman V, etal. Prospective analysis of safety and efficacy of medicalcannabis in large unselected population of patients withcancer. Eur J Intern Med 2018.

Blake A; Wan BA; Malek L; DeAngelis C; Diaz P; Lao N; Chow E; O’Hearn S. A selective review of medical cannabis in cancer pain management. Ann Palliat Med., 2017.

Blasco-Benito S, Seijo-Vila M, Caro-Villalobos M, Tundidor I, Andradas C, García-Taboada E, Wade J, Smith S, Guzmán M, Pérez-Gómez E, Gordon M, Sánchez C. Appraising the “entourage effect”: Antitumor action of a pure cannabinoid versus a botanical drug preparation in preclinical models of breast cancer. Biochem Pharmacol. 2018. 

Choi S; Huang BC; Gamaldo CE. Therapeutic Uses of Cannabis on Sleep Disorders and Related Conditions. J Clin Neurophysiol, 2020.

Dall’Stella, PB; Docema, MF; Maldaun, MV; Feher, O.; Lancellotti, CL.   Case Report: Clinical Outcome and Image Response of Two Patients With Secondary High-Grade Glioma Treated With Chemoradiation, PCV, and Cannabidiol. Frontiers in Oncology, Switzerland, 2019.

Guzmán M. Cannabinoids: potential anticancer agents. Nat Rev Cancer. 2003.

Kleckner AS, Kleckner IR, Kamen CS, Tejani MA, Janelsins MC, Morrow GR, Peppone LJ. Opportunities for cannabis in supportive care in cancer. Ther Adv Med Oncol, 2019.

Scott KA; Dalgleish AG; Liu WM. Anticancer effects of phytocannabinoids used with chemotherapy in leukaemia cells can be improved by altering the sequence of their administration. Int J Oncol 51: 369-377, 2017.

Smith LA; Azariah F; Lavender VT; Stoner NS; Bettiol S. Cannabinoids for nausea and vomiting in adults with cancer receiving chemotherapy. Cochrane Database Syst Rev., 2015.

Twelves C, Sabel M, Checketts D, Miller S, Tayo B, Jove M, Brazil L, Short SC; GWCA1208 study group. A phase 1b randomised, placebo-controlled trial of nabiximols cannabinoid oromucosal spray with temozolomide in patients with recurrent glioblastoma. Br J Cancer. 2021.

Yasmin-Karim S, Moreau M, Mueller R, Sinha N, Dabney R, Herman A, Ngwa W. Enhancing the Therapeutic Efficacy of Cancer Treatment With Cannabinoids. Front Oncol. 2018.

Zarrabi AJ, Welsh JW, Sniecinski R, Curseen K, Gillespie T, Baer W, McKenzie-Brown AM, Singh V. Perception of Benefits and Harms of Medical Cannabis among Seriously Ill Patients in an Outpatient Palliative Care Practice. J Palliat Med. 2020.

 

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no linkedin

Mantenha-se Conectado

Artigos

Educacional

Siga nossas redes sociais e fique atualizado!

CERTIFICAÇÃO INTERNACIONAL EM MEDICINA ENDOCANABINOIDE
INSCRIÇÕES ABERTAS PARA A ÚLTIMA TURMA DE 2021
INÍCIO DAS AULAS EM 23 DE OUTUBRO
Overlay Image
pt_BRBR